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Janeiro 31 2017

Embarque de tropas portuguesas para a Primeira Guerra Mundial, na Europa

Embarque de tropas portuguesas para a Primeira Gue

Há cem anos, em finais de janeiro de 1917, na barra do Tejo, estavam embarcados os primeiros soldados portugueses, centenas deles, que no início de fevereiro começariam a chegar a Brest, porto francês de desembarque das nossas tropas.

O transporte dos nossos militares para França foi uma das grandes dificuldades reais com que Portugal se debateu para concretizar a participação lusa no teatro de guerra europeu. O transporte só era viável por mar, uma vez que por terra punha em causa a neutralidade espanhola, e como não dispúnhamos de suficientes meios navais de transporte, solicitámos à Inglaterra que pusesse à nossa disposição alguns dos seus navios de transporte.

Mesmo assim, os navios cedidos não eram adequados à sua finalidade, uma vez que haviam sido concebidos para a realização de viagens de três horas, que era quanto demorava a ligação entre a Inglaterra e a França, enquanto a viagem que iam fazer entre Lisboa e Brest demorava três dias. Por isso, estes barcos não estavam minimamente preparados para as pessoas dormirem ou para aí serem confecionadas as refeições.

Para agravar esta situação, os primeiros soldados a embarcar permaneceram nos barcos cerca de 10 dias, frente ao Terreiro do Paço e só no dia 31 de janeiro, cerca das 19 horas, é que partiram em direção ao seu destino.

Nesse período de espera para a Guerra, houve um episódio no Tejo, que divertiu os soldados – as acrobacias de um aeroplano pilotado por um português. O jornal “A Capital”, de domingo, dia 28 de Janeiro de 1917, página 1, sob os títulos “Aeroplanos que atacam comboios de tropas / Como se explica a audacia e a habilidade do tenente de marinha portuguesa Caseiro” dá a notícia:

«Na passada segunda feira, o aviador portuguez, tenente de marinha Caseiro, demonstrando uma audacia grande e uma excepcional habilidade de piloto de aeroplanos, veiu da escola de Vila Nova da Rainha de viagem até Lisboa e “passeou” sobre a cidade a alturas varias que, por vezes, chegaram a ser inferiores a 80 metros sobre os telhados da casas.

Depois, executando multiplas espiraes, procurando conhecer as condições atmosphericas e encontrando-as favoraveis, desceu até 15 metros do nivel do Tejo e evolucionou em volta dos transportes de tropas, em “zigzags” impressionantes! Os soldados saudavam a passagem do aeroplano portuguez com vivas e palmas. / O corajoso aviador desceu ainda mais, quasi a 10 metros da agua! Ao passar pelo submersivel “Espadarte” o tenente Caseiro saudou de viva voz o seu comandante (…)».

Ainda relativamente às condições em que eram transportados os nossos combatentes, um dos militares graduados descreveu o seu alojamento no barco como «(...) uma espécie de jazigo com duas prateleiras de lona sobrepostas de cada lado e um pequeno lavatório ao meio» e a comida era «(...) comida inglesa, quase sempre cheirando a cebo das botas.»Os praças ainda conheciam piores condições, muitos deles tinham de dormir no chão, espalhando-se pelos corredores.

A 1.ª leva de combatentes do CEP (Corpo Expedicionário Português), que foi desembarcando ao longo de todo o mês de Fevereiro, totalizou cerca de 12 mil e 500 soldados, transportados em 9 navios (2 portugueses, Pedro Nunes e Gil Eanes e 7 ingleses, Bellerophon, City of Banares, Inventor, Bohemian, Rhesus, Flavia e Lasmedon), tendo chegado nas seguintes datas a Brest, no dia 2 de Fevereiro, 4 navios; no dia 19 de Fevereiro, 2 navios; no dia 20 de Fevereiro, 1 navio; no dia 21 de Fevereiro, 2 navios; no dia 25 de Fevereiro, 3 navios; e no dia 26 de Fevereiro, 1 navio.

Para as escoltas aos vários “comboios” que se formaram para transporte de tropas, o Governo Britânico disponibilizou 14 contratorpedeiros que realizaram dezenas de viagens. De facto, o trajecto de 3 dias de viagem, entre Lisboa - Brest era realizado sob o perigo constante de minas e ataques de submarinos alemães.

Ao longo de um ano, até fevereiro de 1918, embarcariam sempre mais soldados portugueses para a Frente de Guerra, totalizando mais de 58 mil. Em março de 1917, foram 6 610; em abril de 1917, 8 269; em maio de 1917, 8 076; em julho de 1917, 7 196; em agosto de 1917, 7 590; em setembro de 1917, 2 620; em outubro de 1917, 2 048; em novembro de 1917, 792; em janeiro de 1918, 526; e em fevereiro de 1918, 1 836.

 

 

publicado por viajandonotempo às 20:57

Dezembro 27 2016

"Tratado de Commercio entre El-Rei. D. Pedro II de Portugal e Anna Rainha de Gram Bretanha"

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John Methuen, o embaixador inglês em Lisboa, no princípio do séc. XVIII, que se encarregou de negociar a assinatura do Tratado que ficou com o seu nome

 

Em 27 de dezembro de 1703, há 313 anos, foi assinado, entre Portugal e a Inglaterra, o Tratado de comércio que ficou com o nome do embaixador inglês John Methuen, irmão de um empresário têxtil, que o negociou, ficando-lhe a “fama” de ter pago elevados valores aos que intervieram direta e indiretamente na sua concretização. Da parte portuguesa, estiveram mais diretamente envolvidos na elaboração dos seus termos, o diplomata português em Londres, D. Luís da Cunha e D. Manuel Teles da Silva, o 1.° Marquês de Alegrete, Vedor da Fazenda, que era proprietário vinícola.

Este tratado que tinha também objetivos de ordem militar, consolidando a velha aliança entre Portugal e a Inglaterra, obedecia sobretudo a imperativos de ordem económica, até porque Portugal intensificava a exploração de ouro no Brasil e, com este tratado, a Inglaterra conseguiria cada vez maiores superavits nas contas com Portugal, que tinham de ser ressarcidos em ouro.

De facto, o Tratado de Methuen não pode ser descontextualizado da sua conjuntura histórica, uma vez que também pretende solucionar questões geoestratégicas do interesse de Portugal. Assim, ele vem fortalecer os Tratados de Aliança defensiva e de aliança ofensiva e defensiva, assinados em 16 de maio de 1703, junto às potências da Grande Aliança – Inglaterra, Províncias Unidas e Sacro Império – que procuram resolver a questão de segurança imposta pela Guerra de Sucessão Espanhola, em que Portugal esteve envolvido.

Os 3 artigos do Tratado de Comércio entre El-Rei D. Pedro II de Portugal e Ana Rainha da Grã Bretanha estabeleciam:

«Art. 1. Sua Sagrada Magestade ElRey de Portugal promette tanto em Seu próprio Nome, como no de Seus Sucessores, de admitir para sempre d’aqui em diante no Reyno de Portugal, os Panos de lãa, e mais fabricas de lanifício de Inglaterra, como era costume até o tempo que forão prohibidos pelas Leys, não obstante qualquer condição em contrario. Art. II. He esitpulado, que Sua Sagrada e Real Magestade Britannica, em Seu próprio Nome, e no de Seus Successores será obrigada para sempre, d’aqui em diante, de admittir na Gram Bretanha os Vinhos do producto de Portugal, de sorte que em tempo algum (haja Paz ou Guerra entre os Reynos de Inglaterra e de França) não se poderá exigir de Direitos de Alfandega nestes Vinhos, ou debaixo de qualquer outro Título, directa ou indirectamente, ou sejam transportados para Inglaterra em Pipas, Toneis, ou qualquer outra vasilha que seja; mais que o que se costuma pedir para igual quantidade, ou de medida de Vinho de França, diminuindo ou abatendo huma terça parte do Direito de costume. Porem, se em qualquer tempo esta dedução, ou abatimento de Direitos, que será feito, como acima he declarado, for por algum modo infringido e prejudicado, Sua Sagrada Majestade Portuguesa poderá, justa e legitimamente, prohibir de lãa, e todas as mais fabricas de lanifício de Inglaterra. Art III. Os Ex.ᵐᵒˢ Senhores Plenipotenciarios promettem, e tomão sobre si, que Seus Amos acima mencionados ratificarão este Tratado, e que dentro do temo de dous Mezes se passarão as Ratificações.»

Neste tempo a doutrina económica em voga, o denominado mercantilismo, defendia que a riqueza de um país se media na quantidade de metais preciosos que possuísse. Assim, quem não tinha ouro ou prata no território que controlava, tentava investir na produção interna em quantidades excedentárias para poder exportar em maior valor do que importava e assim receber a diferença em metais preciosos.

Portugal viveu na 2.ª metade do século XVII uma situação comercial particularmente crítica, com a descida do preço do açúcar e tabaco brasileiros nos mercados europeus; esta crise agravou-se na década de 1670 devido à concorrência do açúcar produzido, então, nas Antilhas inglesas e holandesas o que levou o Conde de Ericeira, D. Luís de Meneses, a implementar um conjunto de medidas com o objetivo de proteger a nossa economia. Algumas destas medidas foram a Pragmática de 1677, a introdução de indústrias manufatureiras, a concessão de créditos para a sua instalação, a criação de companhias monopolistas de comércio, a promulgação ainda de novas leis pragmáticas, a política de desvalorização monetária e o incentivo e proteção às indústrias.

Grande parte das medidas implementadas promoveu a produção manufatureira nacional, dando trabalho aos portugueses e poupando a balança comercial portuguesa no que respeita ao custo das importações. Como afirmava Duarte Ribeiro de Macedo «A importância da circulação do dinheiro na sociedade é igual à circulação do sangue no corpo humano», daí a relevância deste investimento nas indústrias nacionais.

Estas iniciativas acabaram por fracassar e para isso muito contribuiu o Tratado de Methuen, nos termos que atrás se viram, porque Portugal abriu a sua economia à livre importação dos têxteis britânicos que chegavam ao mercado português pagando apenas 2/3 de direitos alfandegários, em troca de igual privilégio fiscal para os vinhos portugueses que seguiam para Inglaterra. É óbvio que tal tratado se evidenciaria mais favorável aos interesses ingleses do que aos interesses portugueses, 1.º, porque os seus produtos eram unitariamente mais caros que os nossos; e 2.º, porque nós poderíamos, sem grandes dificuldades, produzir aqui os têxteis que importávamos (como se fizera no período da crise), mas os ingleses, mesmo que o tentassem, não podiam produzir na Inglaterra vinhos iguais aos nossos, por razões climáticas. Segundo Coelho da Rocha, logo no primeiro ano de vigência deste tratado as exportações inglesas para Portugal “subiram no valor de 1 300 000 libras”, ou seja 13 milhões de cruzados.

Mais tarde, o Marquês de Pombal adotaria políticas mercantilistas e protecionistas na agricultura, no comércio e na indústria e o Setembrismo, triunfante em 1836, tomou igualmente medidas protecionistas para a economia portuguesa que puseram definitivamente um fim ao Tratado de Methuen.

publicado por viajandonotempo às 10:48

Novembro 29 2016

Os primeiros soldados desembarcaram

em Lisboa a 23 de novembro de 1918

 

combatentes portugueses na 1GM.png

 

 

Há 98 anos, na manhã do dia 23 de novembro de 1918, chegavam a Lisboa, os primeiros combatentes portugueses, após a assinatura do Armistício, ocorrido 12 dias antes. Eram 485 militares do CEP, que bem poderiam ser titulados de “heróis” e de “vitoriosos”. Mas, apesar de ser Sábado, para além de alguns familiares e das entidades representativas do Estado e das Forças Militares, não havia mais ninguém para receber festivamente aqueles que tanto tinham sofrido na frente de combate, ao serviço da Pátria. A bordo vinha também, aquele que poucos anos depois se haveria de cobrir de glória, o então capitão tenente piloto aviador da Armada, Artur de Sacadura Freire Cabral que em 1922 fez, com Gago Coutinho, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

A imprensa cumpriu bem a sua missão. O jornal “A Capital”, por exemplo, carregou nos diversos títulos da notícia: como antetítulo escolheu “Ditosa Patria que taes filhos tem”, como título propriamente dito, “O Regresso dos Heroes” e subtítulo “Voltaram hoje da França amada, soldados portuguezes”. Elogia os heróis que regressam da Guerra que venceram e critica o povo de Lisboa que não os recebe condignamente.

«O coração ainda nos estremece do commoção. Fômos assistir, ha pou­cas horas ainda, ao desembarque dos nossos soldados, que da terra sagra­da da França, cobertos de gloria, cheios de honra, regressam alegres, depois da Victoria.

A muitos d’elles foi um acendrado patriotismo que para lá os arrastou, a crepitar no altar a chamma ardente dos grandes ideaes; outros partiram porque o dever lhes apontou esse caminho, á primeira vista eriçado de escolhos, repleto de perigos, no ter­mo, afinal, tapetado de honras e de heroismos.

Muitos por lá ficaram a dar á terra de França, que a botifarra prussiana calcou sacrilegamente, o vigor indomável do seu sangue em que estuam enthusiasmos incendidos, em que ardem, em palpitações de chamma, as virtudes guerreiras que fizeram da Raça o prototipo da Valentia, da Lealdade, da Honra.

Regressaram os heroes, simplesmente, sem alarido, quasi sem enthusiasmo. A população do Lisboa, que outr’ora vibrava em enthusiasmo nos grandes dias, não os foi receber festivamente – como devia, como era dever imperioso de todos nós, cujo futuro, com o seu sangue e o seu braço, elles garantiram solidamente. Dir-se-hia, na quasi indifferença que observámos, ter-se quebrado na alma do lisboeta aquella corda tão sensivel, tantas vezes clangorando sons magestosos de epopeia, nas occasiões solemnes em que o delirio dos grandes momentos o tomava to­do.

Aparte pessoas das famílias dos soldados, viam-se apenas alguns curiosos o duas ou tres pessoas que o dever do officio para lá obrigou a ir – áquella maçada, como ouvimos, in­dignados, a uma d'ellas.

No emtanto, os nossos heroicos sol­dados, indifferentes á frieza da recepção vinham alegres, prazenteiros (…).

Dos regressados 15 são officiaes, 19 sargentos e 451 cabos e soldados. D’estes 1 é mutilado, 52 tuberculo­sos, 5 doidos, 201 doentes de molestias geraes, 167 licenceados pela junta, 6 licenceados de campanha e 38 condemnados, alguns em penas graves».

Razão tinha o Padre José Ferreira de Lacerda, Alferes capelão-militar da 3.ª Brigada de Infantaria e Diretor de O Mensageiro, de Leiria, que aí fez publicar alguns artigos escritos na Guerra, com o título geral «Em Campanha». No artigo saído a 1 de agosto de 1917, e escrito a 20 de julho de 1917 afirma: «Conheço o nosso soldado, actualmente, desde a caserna até às trincheiras, desde o sobrado da casa que nos serve de capela e onde centenas e centenas deles, todos os dias, vão orar, buscar alentos, revigorar a fé, até ao momento em que os vejo saltar a trincheira, altas horas da noite, para seguirem ou voltarem de alguma patrulha ou raid. Sempre risonhos, sempre valorosos. Não há soldados como os nossos. (…) O povo é inconsciente, é a eterna criança. Às horas que eles aí dançam e cantam, estão os irmãos e os filhos a cair varados por balas, estilhaços de morteiros e gazes. Não calcula o que sinto, o sofrimento do nosso soldado. E são tão bons, tão dóceis! Que impressão ao verem a morte sempre diante deles! (…)».

publicado por viajandonotempo às 10:54

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