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Janeiro 31 2011

Recordando a comemoração do “31 de Janeiro” em Ansião

Os republicanos de Ansião sempre viram na evocação do dia 31 de Janeiro de 1891 uma efeméride importante ao sentir republicano. Essa data não se reduz “ao fracasso militar - como escreve Mário Soares, na sua Mensagem sobre o 31 de Janeiro de 1891, na Nova Renascença/Revista Trimestral de Cultura, - a semente ficou e a influência intelectual dos seus mentores ramificou-se e frutificou”. Efectivamente, o 31 de Janeiro funcionou sempre como uma data de esperança, particularmente simbólica, para os republicanos e democratas portugueses. Foi, também assim, com o aparecimento do jornal republicano ansianense, A Resistencia, precisamente no dia 31 de Janeiro de 1924, que procurava recuperar o poder perdido na Câmara e no Governo Civil; foi, sobretudo assim, com o último comunicado que o general Humberto Delgado dirigiu aos portugueses, no dia 31 de Janeiro de 1965, a escassos 15 dias de ser morto pela PIDE.

 



A Associação de Propaganda e Defesa Republicana do Concelho de Ansião, que tinha como órgão oficial de comunicação, o jornal O Cavador fez sair, propositadamente no dia 31 de Janeiro de 1912, a sua 6.ª edição e quase todo o seu espaço é preenchido com diversos artigos sobre o 31 de Janeiro. Escreveram artigos sobre o tema, José Falcão Ribeiro, Pereira Barata, Alberto Rego, Marques Rosa, Aurélio de Vasconcelos e Carlos Borges. A primeira página, sob o título a toda a largura: "31 de Janeiro de 1891 = 31 de Janeiro de 1912", e com o subtítulo: "Gloria aos precursores e aos martires da Republica" é dedicada a José Falcão, justamente considerado uma das figuras de maior destaque do Partido Republicano em todo o Norte do País. A letras carregadas, o cimo da primeira página dá enorme relevo às palavras de Guerra Junqueiro sobre o homenageado:

«Em José Falcão a inteligencia era robusta, a ciencia enorme, mas a grandeza moral incomparável e soberana. Dizia o que pensava, fazia o que sentia. Um justo. Portanto um solitário».

José Falcão, aquando da Revolução do 31 de Janeiro, estava indigitado «para assumir a autoridade em Coimbra, onde uma parte importante da academia e de elementos populares estava preparada para agir; mas o rápido fracasso revolucionário no Porto sustou a revolução no resto do País» Excerto do artigo de David Ferreira, com o título "Falcão, José Joaquim Pereira" in Dicionário de História de Portugal, Direcção de Joel Serrão. No ano seguinte, 1913, é o periódico Leiria Ilustrada (n.º 372, de 8.2.1913, página 3) que dá notícia da forma como esta data histórica foi festejada em Ansião:

«Pelo aniversario do 31 de Janeiro a Comissão Municipal Republicana distribuiu um folheto comemorativo - Para o Povo - nos Paços do Concelho esteve içada a bandeira nacional, havendo iluminações e tocando a fi­larmonica (...)».

Já no período final da 1ª República, o dia 31 de Janeiro continuava a ser recordado como sinal de esperança de que a democracia e o regime republicano perdurariam para além das crises que se iam tornando cada vez mais frequentes.

Em Ansião, no dia 31 de Janeiro de 1924, o 33.º aniversário da Revolta Republicana do Porto foi duplamente assinalado: por um lado, surgiu, nessa data, um novo jornal de cu­nho político e de intervenção, com o sugestivo título de A Resistencia - Semanario do Partido Republicano Portuguez; por outro, organizou-se, nessa noite no Teatro Ancianense uma conferência sobre o 31 de Janeiro. O novo periódico republicano de Ansião que escolheu, propositadamente, a data da Revolta Republicana do 31 de Janeiro para vir a público, explica na página 1, do seu primeiro número, a razão do seu aparecimento:

«(...) surgindo na imprensa em momento tão agitado e revolto, em que as velhas tradições municipalistas da nação, cada vez mais, esbracejam em estuantes afirmações de vitalidade e dominio, poderia antolhar-se o nosso aparecimento como um desafio, o nosso grito como um signal de alarme (...).

Mas... nada disso amigos.

Surgimos na ribalta em defesa dum ideal que nos empolga a alma e o coração, evan­gelisando e preconisando os principios do partido politico que desinteressadamente servi­mos.

Domina-nos, tambem, o proposito deliberado e firme de propugnarmos pelo presti­gio e progresso desta uberrima e linda região (...)».

A primeira edição de A Resistencia, insere na página 2, um extenso artigo sobre o 31 de Janeiro. Aí se declara que:

«1 de Janeiro é uma data republicana, porque é uma data da nação, resume e simbolisa a afirmação patriotica dum povo que soube sempre amar com enternecimento esta admiravel e formosa terra portugueza (...). Esse movimento glorioso constituiu o aviso aos que dominavam, no sentido de afirmar que não era possivel calcurrear o mesmo indigno caminho de transigencias, de cobardias e de baixesas.

Não o quizeram compreender aqueles que o ouviram.

A palavra fez-se estrofe, o grito transformou-se em anatema, a indignação alentou-se ao solavanco doutras duras violencias e vexames escarrados á face da nação e, avolumando, erguendo-se como uma onda, rolou impetuosamente até se espraiar num grande mar d'almas anciosas e inquietas que se tornaram o eco ameaçador do brado glorioso e já longinquo de 31 de Janeiro.

A fé de tantas almas sedentas de Justiça teve a virtude de acalentar novas energias e gerou a formidavel labareda que, em 5 d'Outubro foi a fornalha da monarquia (...)».

O novo periódico republicano, no seu segundo número, noticia o que foi a comemoração festiva do 31 de Janeiro, em Ansião, organizada pela Comissão Municipal Republicana, destacando sobretudo a conferência que se realizou, à noite, no Teatro Ancianense, proferida pelo novo médico do 2.º partido municipal, Dr. Gualberto de Melo.

Foto Casa da Música com a seguinte legenda:

No Teatro Ancianense os republicanos de Ansião comemoraram festivamente o 33.º aniversário da Revolta Republicana do Porto

 

Aí se escreve que «Ancião, mantendo a sua velha tradição de republicana, quiz comemorar condignamente, esta data a tantos titulos sugestiva e gloriosa de 31 de Janeiro. (...) E não quiz ficar por aqui:

A noite, no theatro Ancianense, realisou o novel e talentoso médico do 2.º partido municipal o ex.mo sr. dr. Gualberto de Melo, a sua anunciada conferencia «O 31 de Janeiro» que, foi publica, visto aquela data ser, não de um partido, mas de todos aqueles que se presam e orgulham de ser republicanos.

O sr. dr. Gualberto de Melo é um novo, mas um novo cheio de talento e de sacrificios á causa republicana e ninguem, pois, poderia ter sido mais bem escolhido pelo sincero e devotado republicano que é Adolpho Figueiredo, digno presidente da Comissão Municipal Republicana, que quiz, assim, traduzir em factos a dedicação do povo republicano desta vila por uma data tão memorável.

Não se furtou aquele nosso prestante correligionario a trabalhar para que a sua terra, Ancião, condignamente comemorasse o 31 de Janeiro, sublimando, se é possivel, a dedicação republicana do seu povo por esta nossa querida Republica (...)».

 

A população do concelho de Ansião no tempo da Revolta do 31 de Janeiro


A terminar, recordamos, com base no recenseamento de 1890, a população do concelho de Ansião no tempo da Revolta Republicana do Porto. Curiosamente, a freguesia da sede do concelho era a mais populosa. O concelho tinha, no total, 12961 habitantes, assim distribuídos, freguesia a freguesia (por ordem decrescente): freguesia de Ansião – 2700; freguesia de Santiago da Guarda – 2397 (no censo de 1864, esta freguesia figurava ainda com o nome de Guarda); freguesia de Alvorge – 2181 (5 anos depois, pelo Decreto de 7-9-1895, perdeu bastante população porque foram desanexados vários lugares desta freguesia que passaram para as freguesias de Santa Eufémia e de São Miguel, do vizinho concelho de Penela, já do distrito de Coimbra); freguesia de Chão de Couce – 1701 (até à publicação do Decreto de 7-9-1895, pertencia ao concelho de Figueiró dos Vinhos, passando a partir dessa data para o concelho de Ansião. O mesmo sucedeu com o Avelar e Pousaflores); freguesia de Pousaflores – 1536; freguesia de Avelar – 957; freguesia de Torre de Vale de Todos – 838 (pelo Decreto de 7-9-1895, parte do lugar de Figueiras Podres, agora denominado Figueiras de São João, deixou de pertencer à Cumeeira, para pertencer a esta freguesia); e freguesia da Lagarteira – 651.

Como se vê, neste ano, a freguesia mais populosa do concelho era a da sede do Município. Mas, a partir do censo de 1900, passou Santiago da Guarda a ser a freguesia com maior número de habitantes.

publicado por viajandonotempo às 23:37

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