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Outubro 31 2010

A Câmara de Ansião dignificou a comemoração do primeiro Centenário da República promovendo em Ansião – um dos concelhos do norte do distrito que mais se destacou na I República – reputados especialistas na matéria, que proferiram as suas comunicações no Auditório Municipal, na tarde do dia 5 de Outubro de 2010.

 

 

Depois de algumas palavras introdutórias do Presidente da Câmara Municipal de Ansião, Dr. Rui Rocha, que justificou a iniciativa do Município que assim se associou ao programa da Comissão Nacional destas Comemorações, e da apresentação de cada um dos intervenientes por parte da Vereadora da Cultura, Dr.ª Célia Freire, foi a vez de cada um dos oradores dizer ao que vinha.

O primeiro a usar da palavra, como estava previsto foi o Dr. António Lopes. Licenciado em História, pela Universidade Nova de Lisboa, e Mestre em História do século XX. É Director do Museu Maçónico Português, Director da revista Grémio Lusitano, Presidente da Associação Portuguesa de Arte Fotográfica, Consultor do IPPAR para a área da fotografia, Director da Escola de Fotografia da Associação Portuguesa de Arte e Membro da Direcção da Liga Portuguesa dos Direitos Humanos. Tem larga experiência como conferencista, uma vasta obra de investigação histórica publicada em jornais, revistas e livros, de que destacamos a coordenação e autoria de A Maçonaria e a implantação da República (2009).

Conferência de António Lopes: 5 de Outubro – Porquê?

Em 5 de Outubro de 1910 a República era vista como último patamar da História. Nas vésperas de 1910, ser-se republicano significava ser civicamente activo e ser-se pela democracia de opinião por oposição ao Estado centralizado na figura do rei. Por seu turno, a participação cívica explica o dinamismo das estruturas associativas, com particular destaque para os Centros Republicanos, onde coexistiam maçons, sindicalistas e carbonários. Era através desta participação cívica que se pretendia passar para a sociedade um conjunto de ideias vasto e frequentemente heterogéneo, tendo por unificador o conceito de Bem Comum.

É nesta realidade que a intervenção maçónica se faz e de forma tão rica quanto variada. Faz-se pelo trabalho em Loja, mas faz-se também pela criação de associações, clubes, bandas de música, escolas e, posteriormente, de centros republicanos, centros de debate e de intervenção política intimamente ligados à Maçonaria.

Ao longo da década de oitenta do século XIX foi crescente o número de maçons nas fileiras republicanas. O contributo da maçonaria portuguesa foi fundamental para o debate, o confronto de ideias e para uma abertura cultural fundamental, onde ao cidadão cabem um conjunto de direitos, expressos na igualdade perante a lei, e de deveres, para com a comunidade, de responsabilidade e participação cívica. Em 1910 a Maçonaria portuguesa agrupava-se fundamentalmente em volta do Grande Oriente Lusitano Unido, de que era Grão-Mestre, desde 1908, Sebastião de Magalhães Lima.

Ainda que a actividade maçónica seja mais evidente no centro e sul, por comparação com o norte, há também que referir alguns núcleos incrustados em zonas rurais um pouco por todo o país, não poucas vezes fruto de iniciativas pessoais e por isso mesmo revelando maiores fragilidades. Há, no entanto, uma relação estreita entre a dimensão dos núcleos urbanos e a sua industrialização e a actividade política e cívica. Após 1910 acentuou-se o carácter urbano da Maçonaria, fruto do peso de Lisboa e do Porto, apesar do surto de Lojas um pouco por todo o país e da perda da predominância da faixa Lisboa-Coimbra.

Assistimos nesta época ao cruzamento, por vezes complexo, de três organizações distintas – a Carbonária, secreta e revolucionária, a Maçonaria, ambas reunindo diferentes matizes ideológicos, e os republicanos do Partido Republicano Português. As fragilidades da República ou as divergências maçónicas de 1914 são um espelho disso e do percorrer caminhos novos nunca antes experimentados. Acresce o carácter inovador da República portuguesa, que a par da França se apresentava perante uma Europa predominantemente monárquica, belicista e vivendo uma crise de identidade cultural.

Conferência de Manuel Augusto Dias: Republicanização no concelho de Ansião

Seguiu-se o autor desta rubrica, com o tema que está na base do lançamento da sua última publicação, lançada na véspera destas conferências.

Nesta comunicação referimo-nos, concretamente, à Associação de Propaganda e Defesa Republicana do Concelho de Ancião, cujos responsáveis pertenciam à elite intelectual que, desde a primeira hora, se afirmou apartidária, desinteressada pelas lutas eleitorais, crendo só no re­publicanismo e nos seus princípios doutrinários e democráticos que procuraram “infiltrar” no povo de todas as aldeias do concelho.

A educação infantil e popular, a questão religiosa e a separação das Igrejas do Es­tado, a luta contra os monárquicos, as festas populares, a participação política do povo, o combate à pobreza, a polémica da construção de linhas de caminho de ferro que servissem esta região, foram alguns dos pro­blemas que preocuparam e envolveram estes homens que se entregaram, de alma e coração, ao ideário e à propaganda republicana, acreditando que o novo regime era o remédio para todos os males.

A Associação de Propaganda e Defeza da Republica do Concelho de Ancião, foi um alfobre de notáveis republicanos que tentaram difundir os seus ideais e princípios democráticos, aproximando-se do povo, com a intenção do instruir para melhor o alfabetizar politicamente, dentro dos cânones da República.

Alguns destes políticos ansianenses chegaram a ser reconhecidos fora dos limites do concelho, pelo seu trabalho sério em prol dos valores republicanos e, por isso, foram chamados a exercer cargos políticos de maior relevo. Estão neste caso, José Cordeiro Júnior e Vitorino Henriques Godinho ligados à revolução republicana e deputados constituintes; o Dr. Rosa Falcão que foi Governador Civil de Leiria e de Coimbra, Secretário do Tribunal da Relação de Coimbra, Chefe de Gabinete do Ministro da Justiça e Subdirector do Supremo Tribunal de Justiça a quem Ansião deve a manutenção da Comarca em 1924; Adolfo de Figueiredo que foi o Governador Civil de Leiria que mais tempo exerceu este cargo durante a Primeira República; Alfredo César Lopes Vieira (Visconde de Santiago da Guarda) que foi o mais votado para assumir a Presidência da Junta Geral do Distrito, em 1914; Dr. José Pereira Barata que foi Governador Civil de Leiria, Inspector do Círculo Escolar de Ansião e, mais tarde, Inspector-Chefe da Região Escolar do Distrito de Leiria; e Paulo Brás Medeiros que, enquanto chefe da estação telégrafo-postal de Ansião conseguiu a proeza de tornar esta estação a de maior movimento de todo o distrito de Leiria.

Não restam dúvidas de que, no contexto da Primeira República, Ansião se destacou como um dos concelhos mais dinâmicos da região centro do País, no esforço de republicanização do mundo rural.


Conferência de Luís Bigotte Chorão: A história desconhecida da I República

A última palestra foi do Doutor Luís Bigotte Chorão. Jurista e historiador. Doutor em Letras (História) pela Universidade de Coimbra e Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do século XX da Universidade de Coimbra. A sua última obra, com base na sua tese de doutoramento, é A Crise da República e a Ditadura Militar (2010).

Tem apresentado diversas comunicações em Encontros Científicos e é Membro da Comissão Interministerial para a Cooperação, Membro do Instituto de História do Direito e das Ideias Políticas da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Membro do Instituto Jurídico Multidisciplinar da Universidade do Porto, Associado do Instituto de História do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Advogado e Consultor Jurídico do Banco de Portugal.

Nesta comunicação o Doutor Luís Bigotte Chorão começou por falar das ligações próximas do Direito e da História e chamou a atenção dos presentes para o facto de não podermos ver a realidade de há cem anos atrás com os olhos de hoje, que é como quem diz, temos de nos esforçar por nos imaginarmos naquele tempo e assim compreendermos melhor as pessoas e os seus actos, sem os desvirtuarmos. Chamou a atenção para a importância da participação popular na propaganda republicana, na revolução e em momentos decisivos da história do regime, e evidenciou a importância de certas personalidades nesse período histórico, como Afonso Costa e outras geralmente esquecidas da historiografia, como Alberto de Moura Pinto que foi uma figura marcante da vida política nacional no período pós implantação da República, como advogado, magistrado, deputado e ministro. Foi apenas mais um aspecto da história da História desconhecida da I República. Falou da legitimidade revolucionária do Governo Provisório, da Lei da Separação das Igrejas do Estado, das associações cultuais, da liberdade de imprensa e da Lei do Divórcio. Recordou algumas das reivindicações femininas e disse que, apesar da legislação eleitoral republicana não reconhecer o direito de voto às mulheres, elas nunca abandonaram o regime.

Fez por outro lado, referência à história da História da I República, prestando homenagem a historiadores, jornalistas e publicistas que assinaram os primeiros estudos e investigações sobre o regime e cuja obra se considerou obrigado a assinalar na data do centenário e que homenageou evocando alguns dos seus nomes: Lopes de Oliveira, Rocha Martins, David Ferreira, Raul Rego, Joaquim de Carvalho, Joel Serrão e António Henrique de Oliveira Marques.

As comemorações encerraram com o Hino Nacional

Às conferências seguiu-se um interessante momento musical, no Salão Nobre da Câmara Municipal, interpretado pelo Coro e Orquestra Ligeira da Sociedade Filarmónica Ansianense, também ela fundada por um ilustre republicano ansianense, Adolfo de Figueiredo, em 1903.

Exibiu-se primeiro a Orquestra Ligeira, dirigida pelo Maestro Jorge Évora, que interpretou brilhantemente as seguintes peças: Birthland e In The Mood; seguiu-se o Coro, sob a direcção do Maestro António Simões que encantou o auditório com Amazing grace e De Terezina a S. Luís; voltou a Orquestra, interpretando desta vez Lisboa Menina e Moça e Hino de Ansião.

Como apoteose, com todos os presentes de pé, Orquestra e Coro cantaram juntos A Portuguesa, tornada Hino Nacional pelo regime republicano.

Houve ainda tempo para um Porto de Honra oferecido pela Câmara Municipal a todos os presentes.

Já depois destas comemorações recebi várias manifestações de apreço e, a terminar este apontamento, não resisto a deixar aqui a transcrição de parte de uma dessas mensagens de pessoa amiga que assistiu ao programa do 5 de Outubro em Ansião: «Para mim foi uma honra estar presente. O meu caro amigo e a Câmara estão de parabéns pelo programa da comemoração do Centenário da República. Foi uma realização ao melhor nível. Ansião representou condignamente o Norte do distrito de Leiria neste I Centenário da República»


publicado por viajandonotempo às 22:04

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