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Fevereiro 28 2017

Os primeiros combatentes portugueses na Flandres francesa

Há cem anos, depois de chegarem à Flandres, os combatentes do Corpo Expedicionário Português, para além do temor que a Guerra naturalmente lhes provocava, tiveram de enfrentar dificuldades acrescidas relacionadas com a temperatura demasiado baixa, a humidade muito elevada, línguas completamente estranhas (a dos ingleses, ao lado de quem foram combater; e a dos franceses, que era aquela em que comunicavam as populações locais) e mais de um mês de treino militar, orientado pelos aliados britânicos. Foi a antecipação destes obstáculos e complicações que levou à ocorrência de diversas insubordinações, no momento de embarque das tropas portuguesas.

Combatentes portugueses.png

Soldados portugueses na Frente de Combate na Flandres Francesa

 

Como vimos na última edição, no fim de janeiro de 1917, seguiram para França os primeiros combatentes portugueses. Para trás, ficavam meses de treino militar e nalguns casos já de combate, nas antigas colónias portuguesas, Moçambique e Angola.

A maioria, no entanto, era a primeira vez que se via nestas lides da guerra e certamente não comungava do mesmo estado de espírito que transparece da “Revista dos Sargentos Portugueses”, que no número 27, de 15 de fevereiro de 1917, afirmava que «o povo portuguez jamais recuou deante dos perigos, por maiores que eles fossem; jamais voltou as costas aos que o provocaram; jamais deixou de ir até ao sacrifício da própria vida, para defender os pactos que tenha firmado com os povos a quem se aliou para a vida e para a morte».

A instrução preliminar ocorrera em quartéis de maior proximidade com as regiões de onde vinham os soldados, nomeadamente, no Norte: Covilhã, Guarda, Lamego e Viseu, e no Centro: Abrantes, Castelo Branco, Leiria e Tomar. Aí, os jovens recrutados e aqueles que se voluntariaram para o serviço militar, receberam treino, entre os meses de Fevereiro e Março de 1916.

Daí seguiram para Tancos que se tornou “ponto de encontro” para cerca de 20 mil homens, instalados provisoriamente num “mar” de tendas, enquanto os graduados se acomodavam em numerosas construções de madeira. E foi nessas condições que decorreu o “Milagre de Tancos” que em pouco tempo pretendeu preparar os homens para a Guerra, na Frente Ocidental.

Quando a instrução em Tancos terminou, os homens feitos soldados, regressaram aos quartéis de onde tinham vindo, ficando a aguardar a ordem de seguirem para França. Como os quartéis não podiam acomodá-los a todos em condições minimamente aceitáveis, os responsáveis militares concederam-lhes licenças registadas, em que puderam regressar a casa, às suas famílias, voltando, muitos deles, às antigas ocupações que conheciam bem.

Mas à medida que ficava mais próxima a “guia de marcha” para a Guerra, a desmoralização aumentava e alguns, também estimulados pelas famílias, resistiram. E quanto mais se aproximava a hora do embarque maior era a resistência. Houve alguns que fugiram para Espanha, outros que reivindicaram lesões e doenças e ainda houve casos de deserções. Até o momento do transporte foi conturbado. Registaram-se diversas insubordinações em todo o país.

Do sítio da internet, http://www.momentosdehistoria.com/, retirámos a informação que se segue, de insubordinações que ocorreram um pouco por todo o país, nos anos de 1916 e de 1917, contra o embarque dos soldados portugueses para a França.

«Covilhã (Junho de 1916)

Insubordinação grave que aconteceu no Regimento n.º 21, da Covilhã, que por volta de Junho de 1916, levou, nos termos do Regulamento Disciplinar, ao envio compulsivo de 342 praças, incluindo 8 sargentos, de castigo para África.

Lisboa (Dezembro de 1916)

O motim em Lisboa, a 13 de Dezembro de 1916, foi conduzido por Machado Santos, herói da Rotunda de 1910, que fez atrasar o embarque do Corpo Expedicionário Português para França e originou a substituição dos oficiais implicados no levantamento. 

Com este motim o CEP perdeu três comandantes de Brigada e dois Coronéis que passaram à reserva em consequência desta situação.

Leiria (Janeiro de 1917)

O motim em Leiria, em Janeiro de 1917, deu-se quando as tropas do Batalhão de Infantaria n.º 7, de Leiria, tentaram dificultar o embarcar no comboio que os iria levar até Lisboa e tentaram não embarcar no cais de Alcântara, mas os próprios oficiais conseguiram controlar e ultrapassar as situações.

Santarém (Janeiro de 1917)

O motim em Santarém, em Janeiro de 1917, deu-se quando os oficiais do Batalhão de Infantaria n.º 34, de Santarém, se recusaram a embarque no comboio para Lisboa, o que levou à detenção e presídio destes. O perigo de propagar a desmotivação e a indisciplina a outras unidades militares levou a que este Batalhão não fosse enviado para França.

Penafiel (Julho de 1917)

O motim mais grave de resistência à ordem de marcha aconteceu em Penafiel, a 1 de Julho de 1917, quando o Batalhão de Infantaria n.º 32, de Penafiel,  se recusou a apresentar no quartel de modo a boicotar o transporte para Lisboa. Esta situação só foi controlada 13 dias depois e após a intervenção da Guarda Nacional Republicana.

Lisboa (Julho de 1917)

Outros motins aconteceram mesmo dentro do cais de embarque em Alcântara, como no caso da insubordinação dos praças do Batalhão de Infantaria n.º 9, de Lamego, que se recusaram a embarcar nos navios aproveitando a incapacidade de comando dos seus oficiais.

Os processos de transporte de tropas para França foi sempre problemático, tendo ocorrido diversos casos de recusa de embarque nos comboios de transporte para Lisboa e de recusa de embarque nos navios para França. A isto acrescentaram-se casos de deserção de praças, e sobretudo oficiais, durante o período de marcha para Lisboa e mesmo já durante o período de tempo em que aguardavam o embarque para França nos quartéis de capital.

Lisboa (Dezembro 1917)

Motim do Batalhão de Infantaria n.º 33, de Lagos, que se encontrava em Lisboa para embarque para França no final de Novembro, mas como o transporte "NRP Pedro Nunes" se demorou em Brest, este ainda se encontrava em Lisboa a 5 de Dezembro. Envolveu-se no movimento revolucionário de Sidónio Pais, auxiliando o derrube do Governo.»

Depois de uma curta estadia em Brest, porto de desembarque das tropas portuguesas, seguia-se o transporte, de comboio, até à região de “Aire”, zona destinada às tropas do CEP.

E foi num clima agreste, de neve, chuva e frio, língua e costumes tão diferentes dos seus, que as tropas portuguesas tiveram de suportar mais de um mês de treino complementar, junto do exército britânico, para se poderem “familiarizar” com as armas inglesas com que iam combater e com as novas formas da guerra que iam conhecer de perto.

publicado por viajandonotempo às 22:24

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