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Fevereiro 25 2015

ERMESINDE NO PERÍODO DA PRIMEIRA REPÚBLICA

 

O Texto que se segue diz respeito a uma Comunicação apresentada por mim, a propósito do Centenário da República, no Rotary Clube de Ermesinde, no dia 22 de fevereiro de 2010, há 5 anos.

 

Ermesinde inicio sec. XX.png

Há precisamente cem anos atrás a Monarquia portuguesa apesar de ser constitucional, estava profundamente desacreditada. Longe do povo, incapaz de resolver os principais problemas do País e do Império, as esperanças voltavam-se todas para a instauração da República.

Os republicanos prometiam um "mundo novo", queriam instruir o povo e trazê-lo à participação política, melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e fazer um Portugal mais próspero.

O 5 de Outubro de 1910 foi um dia de renovada esperança para Portugal.
O povo aplaudiu o sucesso da carbonária republicana. O novo regime ia sendo proclamado por todo o País. As elites urbanas e rurais aderiram efusivamente Á República e quiseram republicanizar o povo. Numas localidades foi mais fácil, noutras a resistência monárquica manteve-se activa.

Regra geral, o povo aceitou o regime republicano como sinal de mudança e de muita esperança. As contas públicas equilibraram-se, surgiu nova bandeira, novo hino, nova moeda. Apostou-se muito na instrução de rapazes e raparigas. Por todo o lado apareceram jornais de fervor republicano. O clero sofreu algumas humilhações (evitáveis, diga-se!) perdeu património e importância social. O País viu mexidas as suas estruturas mais profundas.

Contudo, nem tudo foram "rosas"! Manteve-se sempre uma persistente oposição monárquica, houve divisão entre os republicanos e, pior que isso, surgiu a 1.ª Guerra Mundial em que Portugal participou, em África (para defender as suas colónias) e na Europa (Frente Ocidental, ao lado da nossa velha aliada, Inglaterra).

Esta participação foi verdadeiramente dramática para Portugal pelas suas consequências. Desequilíbrio financeiro, inflação galopante, desvalorização do escudo, caos social e uma  insustentável instabilidade política decretariam o fim mais que certo da Primeira República, com a implantação da Ditadura Militar (1926) que, pouco depois, evoluiria para o famoso "Estado Novo" (1933-1974).

Falando agora concretamente em Ermesinde, podemos afirmar que a sua modernidade começou precisamente na 1.ª República. O seu crescimento tornou-se imparável em número de pessoas, indústrias, comércio e até turismo interno – o Leça, puro e límpido, fez de Ermesinde uma estância balnear das gentes do Porto que para aqui rumavam em grande número ao fim de semana.

A mudança do nome de “S. Lourenço de Asmes” para Ermesinde

Porque “Asmes” era um nome dado a equívocos e a maledicências, a Comissão Administrativa da Freguesia solicitou ao novo Governo Republicano a substituição do nome da Freguesia para o nome da aldeia que um quarto de século antes tinha sido dado à sua estação ferroviária – ermesinde (segundo informação dada pelo Engenheiro Manuel Moutinho, a estação de Ermesinde teve esta denominação porque no projecto inicial da Linha do Minho a estação era para ser construída cerca de meio quilómetro antes, mesmo à frente do lugar de Ermesinde. Só que problemas relacionados com o solo, que ali era demasiado pantanoso, obrigaram a deslocar a estação para onde está).

A deliberação sobre a mudança do nome da freguesia foi tomada por unanimidade na sessão do dia 6 de Novembro de 1910. Era Presidente da Comissão Administrativa Republicana da Junta de Paróquia, Amadeu Ferreira de Sousa Vilar, um histórico republicano que dois anos antes fundara o Centro Republicano de Ermesinde. Três meses mais tarde (dia 6 de Fevereiro de 1911), o Ministro do Interior do primeiro Governo Republicano, António José de Almeida, ouvido o Supremo Tribunal Administrativo deferia o pedido da Comissão Administrativa, e, no dia seguinte, o Diário do Governo publicava a referida resolução.

 LOURENÇO DE ASMES PASSA A DENOMINAR-SE ERMESINDE

Diário do Governo, n.º 30, de 7 de Fevereiro de 1911

«Attendendo ao que me representou a Junta de Parochia da freguesia de S. Lourenço de Asmes; e

Conformando-me com a consulta do Supremo Tribunal Administrativo:

Hei por bem determinar, nos termos do Codigo Administrativo, que a referida freguesia de S. Lourenço de Asmes, do concelho de Vallongo, districto do Porto, passe a denominar-se freguesia de Ermezinde.

Paços do Governo da Republica, em 6 de fevereiro de 1911. = O Ministro do Interior, Antonio José de Almeida».

Nomes de heróis republicanos atribuídos às principais ruas de Ermesinde

Porque Ermesinde estava cada vez maior, impunham-se algumas preocupações urbanísticas designadamente um mais cuidado ordenamento das suas artérias, com a atribuição de nomes às suas ruas. Foi precisamente no período da Primeira República que foram atribuídos os primeiros nomes às ruas desta Terra.

As principais ruas de Ermesinde não deixam lugar a equívocos: os Ermesindenses estavam de alma e coração com o novo regime e com os seus heróis. Assim, na sessão da Comissão Administrativa da Freguesia de Ermesinde, de 15 de Outubro de 1911 (um ano após a implantação da República) foi deliberado propor à Câmara de Valongo os seguintes nomes: à estrada central que parte da Estação e segue para a Capela de S. Silvestre, em direcção a Alfena – Rua 5 de Outubro; ao caminho da Ermida à Travagem – Rua Miguel Bombarda; à estrada da Formiga – Rua Cândido dos Reis (em 1935, um ano depois da morte de José Joaquim Ribeiro Teles, foi o seu nome atribuído a esta Rua); à estrada do Porto que passa pela Igreja e pelo lugar da Cancela – Rua Rodrigues de Freitas. E na sessão seguinte (5 de Novembro de 1911) foi proposto ainda o nome de Elias Garcia para a estrada da Travagem ao Alto da Maia.

Quanto ao nome “5 de Outubro” nem é preciso tecer qualquer comentário, Ermesinde reafirmava, assim, convictamente o seu republicanismo, ao dar o nome da data da revolução – logo na comemoração do seu 1.º aniversário – à sua rua mais central!

Vejamos agora quem foram as pessoas cujos nomes foram dados às outras ruas estruturantes de Ermesinde:

Miguel Bombarda (Rio de Janeiro, 1851 – Lisboa, 3 de Outubro de 1910), médico psiquiatra e político republicano. Foi considerado o chefe civil do movimento revolucionário do 5 de Outubro, mas não chegou a testemunhar a vitória dos republicanos porque foi assassinado por um doente mental do Hospital onde trabalhava, poucas horas antes de ter começado a revolução.

Cândido dos Reis (Lisboa, 1852 – Lisboa, 4 de Outubro de 1910). Militar (Almirante), foi eleito deputado nas listas republicanas de 1910, como destacado membro da carbonária, assumindo a organização militar da revolução do 5 de Outubro. Tendo sabido que o governo monárquico já tinha conhecimento da Revolução, não quis adiá-la, mas, ao ver esmorecer o movimento, despediu-se dos oficiais da Marinha mais próximos e horas depois era encontrado morto. Suicidara-se por não querer conhecer mais um revés e também em resultado do seu temperamento hipocondríaco.

Rodrigues de Freitas (Porto, 24-1-1840 – Porto, 28-7-1896). Professor catedrático (de Engenharia) seria o primeiro deputado republicano eleito nessa condição para o Parlamento português, mostrando-se muito preocupado «com a transparência da Administração, a descentralização, a lisura dos procedimentos eleitorais e políticos, as grandes questões nacionais (como a educação, liberdades de culto, opinião, de associação e de imprensa, as colónias e o deficit orçamental». Aquando da Revolta Republicana do Porto (31 de Janeiro de 1891) ele foi o 1.º nome anunciado para fazer parte do Governo Provisório Republicano. Quando faleceu várias famílias pobres do Porto ficaram sem a pensão de 5$000 réis mensais (uma quantia apreciável para aquele tempo) que ele regularmente lhes pagava do seu bolso, bem como muitos mendigos nunca mais receberam as suas generosas esmolas.

Elias Garcia (Almada, 1830 – Lisboa, 1891). Militar (Coronel de Engenharia) foi Maçon (tendo sido Grão-Mestre em 1888 e considerado um dos responsáveis pela grande expansão maçónica entre nós), Professor da Escola do Exército (onde leccionou a disciplina de Mecânica Aplicada), Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fundador do Partido Republicano (tendo presidido ao seu Directório, entre 1883 e 1891) e seu Deputado, repetidamente eleito por Lisboa (1881, 1884, 1887 e 1890).

Todos estes homens foram heróis do republicanismo português, mas, curiosamente, nenhum chegou vivo ao dia 5 de Outubro de 1910 (os dois primeiros foram a sepultar no dia 6 de Outubro de 1910, o primeiro dia do novo regime)!

A questão religiosa em Ermesinde

Falando da Primeira República, não posso deixar de me referir à questão religiosa nesta freguesia no período das 2.ª e 3.ª décadas do século passado. É conhecida a faceta claramente anti-clerical da República. E aqui não foi diferente, até porque o pároco (Monsenhor Paulo António Antunes) e os republicanos locais andaram sempre de “candeias às avessas”!

Os incidentes foram mais conflituosos após o “5 de Outubro” e o pároco teve de abandonar a freguesia. Segundo algumas fontes, terá integrado as incursões monárquicas em Trás-os-Montes, que tiveram lugar na altura do 1.º aniversário da implantação da República, e, perante a ameaça de ser preso, ter-se-á refugiado no Brasil.

Quase ao mesmo tempo, o Presidente da Comissão Administrativa da Junta da Freguesia de Ermesinde, Amadeu Vilar, tomou conta da residência assim como de tudo o que pertencia à Igreja por ordem do Administrador do concelho.

Nesta sua antiga Paróquia, formou-se, entretanto uma Associação Cultual, também presidida por Amadeu Vilar, que duraria até 1913.

Mas, ainda no que respeita à questão religiosa, terei de fazer referência ao património sagrado nesta paróquia. Como no resto do país, o secretário de finanças teve de arrolar, como propriedade do Estado, todos os bens religiosos (móveis e imóveis) da freguesia.

Mas pior que isso, foi a decisão de transformar o antigo templo religioso desta localidade – a Capela de São Silvestre – numa escola primária! Na sessão de 21 de Maio de 1911, o Presidente, Amadeu Sousa Vilar, reconhecendo a grande necessidade que havia de proteger as crianças pobres, lembrou a construção de uma creche e disse que podia ser aproveitado o terreno da Ermida, onde está a Capela de S. Silvestre, uma vez que a Capela estava num estado de completo abandono.

Mas só em 1921, a Junta da Freguesia entra na posse definitiva da Capela de S. Silvestre, em troca de 100$00, tendo o Pároco sido obrigado a entregar a chave da mesma. A Junta destinou a Capela a escola primária, mas nunca lá seria instalada.

O Cemitério de Ermesinde dividido por um muro que separava os católicos dos não católicos foi outro motivo de grande discórdia, só resolvido após a publicação da Lei da Separação do Estado das Igrejas.

A electrificação de Ermesinde

Importa agora divulgar alguns melhoramentos particularmente relevantes implementados neste período e que muito contribuíram para aumentar a qualidade de vida da população de Ermesinde.

Comecemos pela sua electrificação. Sendo Ermesinde uma terra já de certa dimensão, no início da década de 1920, e tendo diversas indústrias recentemente instaladas, várias vezes se insurgiram os seus moradores mais destacados pelo facto de não terem energia eléctrica, para utilização na indústria, na iluminação doméstica e, sobretudo, na iluminação das ruas. Tanto mais que esta última se tentou, nos primeiros anos da República, a acetileno, mas o resultado foi medíocre e, por isso, pouco tempo depois, foi totalmente posta de parte.

As actas da Junta de Freguesia estão carregadas de referências à preocupação com a chegada da energia eléctrica a Ermesinde.

A boa nova chegou ainda no período da Primeira República. Na sessão da Junta de Freguesia de 8 de Março de 1925, o Presidente deu conhecimento de ter recebido da Câmara Municipal de Valongo, um ofício a participar que, dentro de breves dias, iria abrir concurso para o fornecimento de energia eléctrica à vila de Valongo e a Ermesinde. Mas o golpe militar de 28 de Maio de 1926 adiou o projecto.

Finalmente, no dia 29 de Setembro de 1929, a um Domingo, a iluminação eléctrica era, festivamente, inaugurada nas principais ruas de Ermesinde.

A chegada do eléctrico a Ermesinde

Outra benfeitoria muito importante foi a ligação de Ermesinde ao Porto por carro eléctrico. Chamavam-lhe, naquele tempo, a linha Americana, e o novo transporte de tracção eléctrica era o melhor meio de transporte urbano a ligar o centro do Porto aos seus arrabaldes.

A linha n.º 9 saía da Praça de D. Pedro (hoje Praça da Liberdade, bem no centro da Capital do Norte), e vinha, primeiro até à Areosa, mais tarde até Águas Santas e, a partir de 8 de Fevereiro de 1916, até Ermesinde (Largo da Estação), percorrendo uma extensão total de 10.382 metros.

A concretização deste benefício ficou a dever-se a muita insistência e esforço de algumas das mais destacadas personalidades ermesindenses, designadamente José Joaquim Ribeiro Teles, Alberto Dias Taborda, Amadeu Vilar e Francisco Silveira Machado Soares.

O eléctrico revelar-se-ia um excelente meio de transporte urbano, muito usado ao domingo por parte de centenas ou milhares de portuenses, que buscavam em Ermesinde um espaço de lazer e de sossego, desfrutando de uma magnífica paisagem ribeirinha, junto a um Leça de águas límpidas e margens bem arborizadas, que serviam de cenário natural a piqueniques, onde se reuniam famílias inteiras ou grupos de jovens que assim se distraíam de forma bastante sadia e alegre.

Nos dois anos que vão de Julho de 1920 a Julho de 1922, venderam-se quase 500 mil bilhetes.

Ermesinde convertera-se, então, numa verdadeira estância balnear e campestre, merecendo plenamente os epítetos de “Pérola do Leça” e de “Sintra do Norte”.

O eléctrico contribuiu para a promoção turística de Ermesinde, mas também para o seu enorme crescimento urbano.

Mais tarde, já no decurso do ano 1928, a linha n.º 9 do eléctrico avançaria na Rua Rodrigues de Freitas até junto da Igreja Matriz de Ermesinde, seu novo términus.

A industrialização de Ermesinde

Uma palavra também para o esforço de industrialização de Ermesinde.

Antes da implantação da República, a Fábrica de Fiação e Tecidos de Sá era praticamente o único estabelecimento fabril e com pouquíssimos anos de existência. Fundada nos princípios do século XX, logo se afirmaria como uma das mais importantes unidades industriais de Ermesinde, pela sua vastidão, instalações, quantidade de operários e, sobretudo, pela qualidade e perfeição dos seus artigos de então: panos crus, panos famílias e cotins.

A referida unidade fabril foi fundada pelo grande industrial portuense Manuel Pinto de Azevedo e o seu primeiro sócio gerente foi o ilustre ermesindense e convicto republicano Amadeu Vilar. Este enérgico homem em quem sempre se reconheceram arreigados princípios democráticos, tanto como autarca (Regedor, Presidente da Junta e Administrador do Concelho de Valongo), como empresário, para tornar mais cómoda a vida dos seus operários, fundou uma padaria na fábrica destinada exclusivamente ao fornecimento de pão aos operários e criou também uma cooperativa de consumo, onde eles poderiam abastecer-se dos géneros de primeira necessidade, a preços muito mais baixos que os do circuito comercial normal.

Foi por sua iniciativa que se fez uma primeira ampliação da fábrica para melhor corresponder ao aumento da produção que se ia registando de ano para ano, e que se criou também uma cantina, mais uma vez, destinada aos operários.

Do tempo da 1.ª República é a Fábrica de Cerâmica de Ermesinde (actual Centro Cultural) fundada, precisamente em 1910, por dois homens de notável iniciativa: Eng.º Francisco Xavier Esteves e Augusto César de Mendonça, tornando-se este último o gerente técnico da Empresa.

Prestigiado republicano, Augusto César de Mendonça seria o primeiro Presidente da Junta da Freguesia eleita no período da Primeira República.

Em 1920, a fábrica de cerâmica mudaria o nome para “Empresa Industrial de Ermesinde, L.da”. No princípio começou por produzir telha “Tipo Marselha” e tijolo vulgar. Mas, no decurso dos primeiros anos, notou-se uma extraordinária expansão, devido certamente à sua excelente situação geográfica, pelo que foram aumentadas as instalações, adquirido moderno equipamento, criadas novas secções e aumentado o horário de laboração para poder satisfazer as muitas encomendas que chegavam de todas as partes do país.

Situada junto à Estação Ferroviária de Ermesinde e servida por linha particular, a Empresa Industrial de Ermesinde dispunha de excelentes condições e foi considerada uma das maiores e melhores do país no seu género.

Um periódico ermesindense de republicanismo doutrinário

            Mas os republicanos nunca descuraram a questão política – a republicanização do povo. A República procurava chegar a todo o país, pela via da propaganda, dos comícios, das grandes manifestações e até do jornalismo doutrinário.

Em Ermesinde surgiu também um semanário noticioso e independente, mas claramente republicano, procurando chegar aos leitores dos dois concelhos, que lhe serviam de título – era o “Maia-Vallonguense”.

O seu 1.º número surgiu no dia 14 de Janeiro de 1912, e tinha como Director, António Guerreiro, e Editor, Domingos Amorim. O preço de capa era 40 réis, mais tarde, reduzido para metade. A Redacção e Administração funcionavam na Quinta da Formiga, onde estava instalado o Internato da Escola Guerreiro.

A partir do n.º 3 (28.1.1912) a Redacção e a Administração passaram para a Rua de Cedofeita, no Porto, onde funcionava o Externato da mesma Escola Guerreiro.

Publicaram-se apenas 5 números, o último dos quais no dia 18 de Fevereiro de 1912. Logo no primeiro Editorial, se retrata quanto aos seus objectivos: «(…) Republicano dentro da República, defendê-la-á em todos os transes, mas será livre na crítica aos actos do Governo, quando os homens que estiverem à sua frente se não deixem orientar pelo recto caminho do dever que conduz à prosperidade da pátria».

A população de Ermesinde no período da 1.ª República

Em 1910, Ermesinde ainda era acentuadamente rural. Tinha apenas 3500 habitantes (mas 25 anos antes, quando o comboio ainda cá não tinha chegado, tinha só 1200), sendo a 2.ª freguesia mais populosa do concelho, logo a seguir à da sede, onde residiam mais 200 pessoas.

Há cem anos atrás, a população de S. Lourenço de Asmes dispersava-se por 23 lugares que a seguir enumero por ordem decrescente do número dos seus moradores:

Vilar (565), Sá (371), S. Paio (361), Cancela (269), Estação (200), Palmilheira (200), Rapadas (185), Ermida (164), Costa (129), Arregadas (122), Ermesinde (113), Igreja (98), Travagem (96), Gandra (81), Vilar de Matos (78), Souto do Moinho (77), Souto (70), Porto Carreiro (70), Outeiro de Sá (64), Liceiras (59), Passal (55), Formiga (46) e Quinta da Formiga (29).

Decorrida a 1.ª década de regime republicano e 4 anos após a chegada do eléctrico a Ermesinde, o número dos seus habitantes aumentou 25%, passando para 4403 habitantes, tornando-se, desde então, a freguesia mais populosa do concelho de Valongo (a sede do concelho, na mesma década, viu até baixar a sua população residente em mais de 3%, fixando-se, em 1920, em 3605 pessoas).

A Guarda Nacional Republicana em Ermesinde

Sendo Ermesinde, no período da República já um grande aglomerado populacional, justificava-se a presença da nova força de segurança criada pelo novo regime político e, justamente, denominada Guarda Nacional Republicana.

Para além de garantir a segurança das pessoas e dos seus haveres, a GNR foi também a guardiã do regime republicano e a sua força chegou a ser tanta, que, no período final da Primeira República, foi capaz de fazer cair governos e de influenciar a constituição de novos ministérios.

A GNR de Ermesinde foi alojada na casa da Junta da Freguesia, que teve de sofrer obras de adaptação, custeadas pela Junta e por uma subscrição pública.

No fim da Primeira República, o Posto da GNR de Ermesinde era comandado pelo 2.º Sargento Américo de Carvalho, que foi um dos participantes activos no movimento militar e civil republicano que se organizou no Porto, a partir do dia 3 de Fevereiro de 1927, contra a Ditadura Militar, que se havia instalado no Poder, na sequência do Golpe de 28 de Maio de 1926. Essa Revolta durou até ao dia 7 de Fevereiro, data em que foi derrotada.

Destes conflitos, que tiveram também as suas repercussões em Lisboa, onde se prolongaram até ao dia 10 de Fevereiro, resultaram centenas de mortos, milhares de feridos, enormes prejuízos materiais e cerca de 600 prisioneiros e deportados.

Entre os prisioneiros, conta-se precisamente o antigo comandante do Posto da GNR de Ermesinde, 2.º Sargento Américo de Carvalho, pai de 4 filhos menores, já órfãos de mãe, que foram internados numa instituição própria.

Os restantes soldados da GNR de Ermesinde foram imediatamente substituídos. Contudo, a Comissão Administrativa da Freguesia de Ermesinde, na reunião de 13 de Fevereiro de 1927, presidida por António José de Oliveira e Silva deliberou prescindir da força local da GNR. Esta deliberação foi tomada, obviamente, mais por motivações políticas, do que propriamente pela consciência da inutilidade de tal força de segurança.

O Colégio de Ermesinde

Também o Colégio de Ermesinde, um “ex-libris” desta terra, apareceu no período da Primeira República. Primeiro, como Internato da Escola Guerreiro (1911-1912) e, desde 1912, como Colégio de Ermesinde.

Foi no dia 28 de Dezembro de 1912, que o primeiro Presidente da República Portuguesa, Manuel de Arriaga, assinou o Alvará que concedia licença a José Joaquim Ribeiro Teles e ao Padre Manuel Moreira Reimão para estabelecerem um instituto particular de ensino secundário em Ermesinde, com o nome de Colégio de Ermesinde.

O Colégio granjeou fama a nível nacional e viu aumentar significativamente o número dos seus alunos. De 37 alunos, em 1912-1913, passou para os 120, nos anos lectivos de 1916-1917 e 1917-1918.

Não deixa de ser curioso ter encontrado, durante as minhas pesquisas para a elaboração da Monografia de Ermesinde, nas páginas de um jornal diário da capital, “A Época”, o seguinte anúncio que ali foi publicado no ano de 1919, nos meses de Setembro e Outubro:

 COLLEGIO DE ERMEZINDE

Telephone n. 2096 – O melhor collegio de campo português – ERMEZINDE (Porto)

INSTALAÇÕES ESPLENDIDAS

Situação admiravel em pleno campo com caminho de ferro electrico (nº 9).

Alimentação comum a directores, professores e alumnos.

Educação moral cuidadosa e esmerada.

Educação physica completa com amplos campos de jogos.

Educação literaria proficientissima.

O resultado dos exames do anno lectivo findo, numa frequencia de 120 alumnos, foi superior a toda a espectativa, como se vê do Relatorio.

Curso dos lyceus completo, primario e commercial

ABRE a 14 de Outubro

Enviam-se Relatorios

                                                           Os Directores

                                 Dr. Antonio Augusto de Castro Meireles

Dr. Gaspar Augusto Pinto da Silva

Padre Arnaldo Tomé dos Santos Rebelo

Associações ermesindenses que já vêm da Primeira República

Numa terra em franco crescimento, grande dinamismo republicano e cheia de vida não podia faltar também o associativismo.

Para não tornar demasiado longa esta comunicação, evocarei apenas aquelas associações que ainda hoje existem e tiveram início naquele memorável período da nossa História-pátria que hoje aqui recordamos.

Começo pela prestigiada Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ermesinde fundada no dia 1 de Junho de 1921. Entre os fundadores não faltaram as principais personalidades republicanas locais, nomeadamente Amadeu de Sousa Vilar e Augusto César de Mendonça, que foram também os seus primeiros Presidente e Vice-Presidente da Direcção, respectivamente.

O Corpo Nacional de Escutas de Ermesinde foi organizado em fins de 1925, era o Grupo n.º 22 – Nuno Álvares Pereira – de Ermesinde, hoje designado por VII Agrupamento. Por ele têm passado algumas centenas de adolescentes, homens e mulheres com uma obra mérito ao serviço da Igreja e da comunidade ermesindense.

Foi ainda na 1.ª República (1923) que se fundou o Ermesinde Foot Ball Club, que, mais tarde (1936), daria origem ao actual Ermesinde Sport Clube. Na época desportiva 1924-1925, inscreveu-se na Associação de Futebol do Porto e disputou o Campeonato de Iniciação.

A Conferência de S. Vicente de Paulo de Ermesinde é uma das instituições assistenciais mais antigas desta terra. Foi fundada no dia 27 de Janeiro de 1924 num contexto de grandes dificuldades motivadas pelo enorme aumento do custo de vida no pós 1.ª Guerra Mundial e é responsável pelo desaparecimento de centenas de mendigos que andavam de porta em porta, dando um triste espectáculo de miséria e pobreza.

Republicanos de Ermesinde

E, a terminar, permitam-me que refira agora, de uma forma mais directa e muito breve, o nome de três destacados republicanos de Ermesinde.

Amadeu Sousa Vilar – após a implantação da República foi o 1.º Presidente da Comissão Paroquial Republicana, tendo exercido também os cargos de Regedor, Presidente da Direcção da Associação Beneficência e Culto de Ermesinde e dos Bombeiros Voluntários locais. Foi ainda, no sector industrial, o 1.º sócio gerente da Fábrica de Fiação e Tecidos de Ermesinde e a sua residência era a “Vila Beatriz”.

Augusto César de Mendonça – prestigiado republicano foi o 1.º Presidente da Junta da Freguesia eleita no período da Primeira República, Administrador do Concelho de Valongo, e, em termos empresariais, foi o 1.º sócio gerente da Fábrica de Cerâmica de Ermesinde (actual Centro Cultural e Parque Urbano de Ermesinde).

Dr. Joaquim Maia Aguiar – médico e republicano. Foi um dos fundadores do Centro Republicano de Ermesinde e, depois da proclamação da República, foi nomeado 1.º Administrador do Concelho de Valongo; já no período final da 1.ª República foi Presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Valongo.

Em conclusão e como afirmava no início, e acho que ficou amplamente demonstrado, Ermesinde (re)nasceu com a República. Ela deu-lhe o nome que hoje ostenta, modernizou as suas acessibilidades trazendo-lhe o carro eléctrico, iluminou-a com a nova energia eléctrica, industrializou-a, fundou o seu prestigiado Colégio e um punhado de associações que ainda hoje sobrevivem e atraiu muita população, que aqui se fixou (tornando-a a freguesia mais populosa do concelho) ou que aqui vinha ao fim de semana para desfrutar da sua bela paisagem fluvial.

publicado por viajandonotempo às 19:36

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