VIAJANDO NO TEMPO...e no espaço!

Janeiro 30 2019

Há cem anos o país estava praticamente em guerra civil

cAMPO PEQUENO.png

Na praça de touros do Campo Pequeno. - Cidadãos já inscritos alinhados por pelotões, recebendo as primeiras instruções militares. (inIlustração Portuguesa, 676, 3 de fevereiro de 1919)

 

Após a restauração da Monarquia por Paiva Couceiro na cidade do Porto, no dia 19 de janeiro de 1919, com repercussões em Monsanto (Lisboa) quatro dias depois, o país ficou praticamente no estado de guerra civil, com os monárquicos na capital do norte a tentarem resistir à pressão das forças republicanas. Aguentaram 25 dias, até 13 de fevereiro de 1919.

Os monárquicos em Monsanto seriam vencidos muito mais cedo. No dia 23 de janeiro, Aires de Ornelas comanda tropas fiéis à Monarquia, que tomam posições na Serra de Monsanto, por influência do movimento do Porto. O governo republicano nomeia Vieira da Rocha para organizar o ataque aos monárquicos que se encontram em Monsanto. Muita população civil acompanha os militares republicanos e, segundo a imprensa do tempo, esta participação popular terá contribuído significativamente para o triunfo das forças governativas, no final da tarde de dia 24 de janeiro.

Ainda no dia 23 de janeiro, enquanto se combatia em Monsanto, tropas republicanas ocupavam vários quartéis em Bragança. Também na cidade de Viseu, nesse mesmo dia, os monárquicos eram derrotados.

No dia 24 de janeiro de 1919, em sentido contrário, registaram-se várias adesões à causa monárquica, com a proclamação do velho regime em Vila Real e em Estarreja.

No dia 26 de janeiro de 1919, um Domingo, o governo republicano nomeia o general Alberto da Costa Ilharco comandante das tropas republicanas, numa conjuntura de praticamente guerra civil entre forças republicanas e as hostes monárquicas a Norte.

Nos últimos dias de Janeiro em várias terras do Norte do país houve confrontos militares entre republicanos e monárquicos. O que é isto senão uma guerra civil? Apesar do esforço de politização dos republicanos, no sentido de “converter” o povo às causas da República, havia ainda muitas pessoas que preferiam a monarquia. É preciso também contar com o peso da religião católica (a maioria do povo português manteve a sua fé arreigada e o fenómeno de Fátima consolidou-a) e com os dissabores que a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial trouxe ao país real.

Nos finais de Janeiro (dia 28), sai de Lisboa uma divisão naval com a missão de operar contra a “Monarquia do Norte”. Nos dias seguintes, prosseguem os combates entre as forças republicanas e monárquicas, dando-se, no dia 29 de janeiro, o recontro de Angeja (uma das freguesias do concelho de Albergaria-a-Velha), e no dia 30 de janeiro, os monárquicos tentam mas não conseguem ocupar Aveiro, que se torna assim uma das fronteiras de um Portugal dividido entre a Monarquia, mais a Norte, e a República, mais ao Centro e a Sul.

No último dia de janeiro de 1919, há cem anos, as forças republicanas avançam no terreno e ultrapassam Angeja e Albergaria-a-Velha. Já no mês seguinte, a 1 de fevereiro de 1919, prosseguem os combates entre republicanos e monárquicos. Bem a Norte, a cidade de Chaves mostrava ser um bastião republicano, tendo resistido aos monárquicos com a determinação do Tenente-coronel Ribeiro de Carvalho. Daqui sairiam forças militares, que haveriam de deter o avanço da ofensiva monárquica.

 

publicado por viajandonotempo às 22:51

Dezembro 21 2018

ASSASSINADO EM 14 DE DEZEMBRO, FOI A ENTERRAR DIA 21 DE DEZEMBRO

Funeral de Sidónio Pais.png

Hoje, dia 21 de dezembro, completam-se cem anos sobre um dos mais concorridos funerais que Lisboa presenciou, o do único presidente da República assassinado durante o exercício do cargo, Sidónio Pais. O Panteão Nacional, onde ele se encontra sepultado, desde a abertura do monumento, em 1966, inaugurou, no mês passado, uma exposição que inclui objetos pessoais que, pela primeira vez, foram expostos ao grande público. Sidónio Pais foi o primeiro Presidente da República que se preocupou com a sua imagem, tendo especiais cuidados na forma como era fotografado e como aparecia em público. Também a ele se deve a fundação do Serviço de Audiovisuais na Grande Guerra, que criou filmes da participação portuguesa na Guerra e de algumas viagens presidenciais no país. Uma curiosidade é que o seu túmulo é o único no Panteão que, desde 1966, tem sempre flores frescas.

Da reportagem sobre o seu funeral, que saiu na “Ilustração Portuguesa” de 30 de dezembro, extraímos alguns excertos, que são bem ilustrativos do que se passou nesse dia: «Aos vivos crêmos que em nenhum ha memoria de se terem derramado tantas lagrimas, de se haver manifestado uma dôr tão intensa e conunicativa na passagem de um morto querido a caminho do eterno repouso. (…) Só quem percorreu lentamente, parando dezenas de vezes pelo caminho, a distancia de 8 quilometros que vae da Praça do Comercio ao templo dos Jeronimos, dando a volta pelo Rocio, por entre alas compactas de gente de todas as categorias; só quem relanceou os olhos por todas essas portas, janelas, telhados, muros, encostas, arvores, por todas as elevações emfim, d'onde se podia abranger o cortejo, é que não achará exagerado quanto se diga, quanto se imagine dos muitos milhares de pessoas que acudiram, de todos os pontos da cidade e do paiz, levadas da mais viva angustia e veneração, a dizer o ultimo e saudosissimo adeus aos tristes despojos d'aquele homem extraordinario, que tanto soubera fazer e amar e resumia, n'este momento supremo da vida nacional, as nossas melhores esperanças. Pelas ruas e praças havia o recolhimento religioso de um templo, onde o que é terreno emudece ante a sublimidade dos misterios a que o espírito se libra. Os mesmos soluços reprimiam-se, como se todos, n'um supremo esforço, se impuzessem a suspensão da vida. (…) O sangrento motim da Rua Augusta, originado certamente n'um estado de tensão morbida dos espiritos, que não precisava mais para explodir do que a pequena faulha necessaria á polvora, marcou, sem duvida, uma perturbação gravissima no cortejo, não tardando este muito a reatar-se e a retomar a sua marcha imponente. (…) E não se faz idéa do que tinha de empolgante esse extraordinario conjunto de todas as hierarquias sociaes, nobres e plebeus, ricos e pobres, homens de ciencia e de trabalho humilde, corporações oficiaes e particulares de toda a especie representando, sem faltar uma só, as forças vivas do paiz, dirigentes e dirigidas, todas as patentes do exercito e da armada, soldados e marinheiros, altos vultos politicos e funcionarios publicos, representantes dos governos aliados e não aliados, forças da marinha ingleza, franceza e hespanhola, colonias estrangeiras, uma infinidade indestrinçavel de entidades, tudo n'um preslito verdadeiramente colossal, entrecortado de bandeiras, de estandartes, de inumeras corõas, levadas á mão ou em carro e matisado de uma profusão inaudita de flores!. (…) A' passagem do seu cadaver, cujo rosto se via atravez da cupula de vidro da urna, meio coberta pela bandeira portugueza, ninguem poude conter a dôr. Sobre ele choviam flôres e bençãos; chorava-se alto e resava-se de joelhos.»

 

publicado por viajandonotempo às 14:09

Dezembro 14 2018

Estava na Estação do Rossio pronto para seguir para o Porto

Retrato_oficial_do_Presidente_Sidónio_Pais_(1937)

Oito dias depois da primeira tentativa falhada para assassinar Sidónio Pais, o Presidente da República seria mesmo morto a tiro na Estação do Rossio, em Lisboa, faz hoje (6.ª feira) cem anos.

Foi no dia 14 de 4ezembro de 1918, cerca das 23h 45m, que José Júlio Costa, um republicano das esquerdas e antigo militar, do concelho de Ourique, envolvido em lutas laborais mal resolvidas, assumidamente só, conseguiu furar os cordões policiais de segurança e aproximar-se o suficiente para disparar mortalmente sobre o Presidente da República, no primeiro piso da Estação Ferroviária do Rossio (em Lisboa) onde Sidónio Pais se encontrava, juntamente com o filho, para viajar durante a noite para o Porto. O presidente acabaria por morrer cerca da meia-noite já no Hospital de S. José. Durante o tiroteio morreriam 4 pessoas, mas o assassino seria preso e sobreviveria à vítima quase 30 anos, na situação de prisioneiro.

Foram feitas dezenas de prisões em Lisboa e nos arredores. Houve pessoas que se atreveram a falar em público contra o Presidente e foram vítimas de maus-tratos e algumas mesmo mortas, fazendo fé naquilo que se escreveu nas páginas do jornal “A Capital”, no dia seguinte ao assassinato (domingo, dia 15 de dezembro). A título ilustrativo transcrevemos, em português atual (para melhorar a compreensão), dessa edição de “A Capital” dois casos. O 1.º refere: «Pelas 8 horas da manhã, um indivíduo que estava à esquina das ruas das Amoreiras fazendo comentários sobre o atentado e comentando os atos do governo foi preso por dois soldados de artilharia e vários populares, os quais lhe deram tal sova que teve de ir para o hospital de S. José, em estado grave»; o 2.º relata o seguinte: «Esta manhã deu-se na rua da Boavista uma tragédia, consequência da morte do sr. Sidónio Pais. Um indivíduo que ali se encontrava, estava a falar sobre o caso, fez apreciações pouco favoráveis ao sr. Presidente da República. Vários populares caíram sobre ele e de tal modo o maltrataram que o deixaram morto».

Vários periódicos foram “assaltados” e estiveram fechados algum tempo. Foi o que aconteceu precisamente com o jornal “A Capital” que deixou de se publicar entre os dias 15 e 30 de dezembro de 1918.

O momento político e social que então se viveu foi de enorme consternação, porque Sidónio tinha granjeado grande popularidade e a fama de “salvador da pátria”, antecipando, em uma década, uma situação muito semelhante que haveria de reaparecer com Oliveira Salazar, a partir de 1928, dessa vez, porém, para ficar muitos anos.

A “Ilustração Portuguesa”, de 23 de dezembro de 1918, mostra bem este estado de espírito coletivo que se viveu no país: «Por toda a parte se derramaram copiosas lágrimas; soluçaram-se lástimas sentidas e tocantes sobre a destruição brutal de uma existência tão preciosa; mas não foram menos as maldições que se dardejaram estigmatizantes como ferros em brasa, contra esses ódios de morte, que se têm vindo semeando e fomentando entre nós, contra este fervedouro de paixões, que há muito não nos deixa um momento de tranquilidade, contra este processo degradante dos homens e das fações quererem decidir das suas rivalidades e dos seus conflitos, aniquilando-se como verdadeiras bestas-feras».

publicado por viajandonotempo às 15:24

Janeiro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
31


ÍNDICE DESTE BLOG:
Tags

todas as tags

pesquisar
 
mais sobre mim
contador
subscrever feeds
blogs SAPO