VIAJANDO NO TEMPO...e no espaço!

Julho 26 2021

ESTÁVAMOS EM JULHO DE 1921- HÁ CEM ANOS

Ilustracao Portuguesa_23-7-1921_p.66[5239].png

Retratos de alguns dos eleitos nas eleições legislativas de 10 de julho de 1921 (in “Ilustração Portuguesa”, edição de 23-7-1921)

Em julho de 1921, há cem anos, ocorreram as sextas eleições legislativas do período da Primeira República (1910-1926) e foram as primeiras que o Partido Democrático, herdeiro do Partido Republicano Português, enquanto concorrente, perdeu. Sabe-se que este complicado período da história de Portugal, no primeiro quartel do século XX, ficou marcado por grande instabilidade política, que é bem manifesta em quase meia centena de governos em pouco mais de 15 anos. Mas essa instabilidade tinha sobretudo origem na intensa atividade parlamentar que rapidamente retirava o apoio a um governo, obrigando à sua substituição por outro. Além da luta partidária a sucessão de governos está associada também à agitação social e à frequente interferência dos militares, sobretudo da GNR, nas instituições políticas. No dia 10 de julho de 1921 foi o Partido Republicano Liberal quem venceu as eleições legislativas.

 

Recordo que a Primeira República foi responsável por muitas mudanças, algumas delas ainda hoje estão em vigor. E as maiores alterações estruturais foram determinadas logo pelo Governo Provisório que era presidido pelo republicano açoriano Teófilo de Braga. Foi aprovada a lei da Separação da Igreja e do Estado, decretada a proibição do ensino religioso nas escolas, deliberada a nacionalização dos bens da Igreja, legalizado o divórcio, determinada a liberdade e igualdade conjugais na sociedade, prevista a escolaridade obrigatória para os dois sexos até aos 10 anos, consagrado o direito à greve e ao lockout e procedeu-se ainda à substituição da Bandeira e do Hino nacionais. Foi criada também uma nova moeda para substituir o real, o escudo, mil vezes mais valiosa do que a moeda anterior.

Mas hoje vamos falar das eleições legislativas da Primeira República que serviam para eleger o Congresso, constituído por duas câmaras: a Câmara de Deputados e o Senado. Houve eleições legislativas nas seguintes datas: 28 de maio de 1911, 16 de novembro de 1913, 13 de junho de 1915, 28 de abril de 1918, 11 de maio de 1919, 10 de julho de 1921 e 29 de janeiro de 1922. A capacidade eleitoral era, basicamente, reconhecida aos cidadãos do sexo masculino, maiores de 21 anos, que soubessem ler e escrever. Algumas mulheres mais politizadas e até ligadas ao republicanismo travaram uma luta perdida pelo reconhecimento do direito de voto ao género feminino.

As penúltimas eleições legislativas da República foram então no dia 10 de julho de 1921 e deram a Vitória ao Partido Republicano Liberal, que representou a unificação dos evolucionistas, unionistas e centristas, em 1919, com 48,5% dos votos. Os Democráticos triunfaram apenas em Lisboa, tendo obtido, a nível nacional, 33,1% dos votos. Os Liberais elegeram 79 deputados (em 163), contra os 54 eleitos pelos Democráticos. O Partido Republicano de Reconstituição Nacional elegeu 12 deputados. Os restantes 18 lugares da Câmara de Deputados foram distribuídos por pequenas formações partidárias: 5 Independentes, 4 Monárquicos (foi a primeira vez que foram a votos na Primeira República), 3 Católicos, 3 Dissidentes, 2 Regionalistas e 1 deputado eleitos pelos Populares.

As reações da imprensa republicana são imediatas. O “Diário de Lisboa” do dia 11 de julho, por exemplo, relativamente às eleições da véspera, traz o seguinte título, em jeito de pergunta, na 1.ª página: “Mas o governo consegue obter a maioria no paiz? Esta interrogação, sem regozijo por parte de pessoa alguma, até dos adversarios, anda á hora a que fechamos esta primeira pagina, na boca de toda a gente». Noutro espaço da primeira página, do mesmo diário, afirma-se: «O Sr. Machado Santos, numa entrevista que hoje concedeu a um jornalista, e que ámanhã virá a publico, afirmou: “Desde o momento em que o governo fechou a porta do Parlamento ao fundador da Republica para abri-la aos monárquicos, só me resta um caminho: a revolução”». Na página 5, do “Diário de Lisboa” da mesma data, ainda a respeito deste ato eleitoral, as hesitações quanto ao resultado final, são bem evidentes nos títulos: “Um Dia Depois do Acto Eleitoral / Tudo leva a crêr que o governo obtenha no país uma muito débil maioria / 83 deputados governamentais».

E os jornais tão afoitos em dar notícias em cima do acontecimento (recorde-se que, neste tempo, o jornal era a única fonte de informação que existia), surpreendiam-se com as dificuldades em saberem ao certo os resultados eleitorais que se haviam verificado um pouco por todo o país, conforme se verifica neste excerto do “Diário de Lisboa”, de 11 de julho: «Por motivos que não conseguimos espiolhar, desta vez o apuramento eleitoral geral caracteriza-se por uma grande indecisão e demora telegrafica. Ao meio da tarde de hoje, circulos havia de onde tinham sido remetidos, oficialmente, apenas pequenos apuramentos por freguesias, sem darem idéa perfeita. O governo não faz idéa ainda segura, nem o pode fazer, do numero de candidatos triunfantes das suas listas. O mesmo sucede com os democraticos. Sabe-se que o Sr. Antonio Maria da Silva não tem informações positivas dos circulos que muito interessam o seu partido, e Vila Real, por exemplo, que deve ter oferecido, pelas nossas informações particulares, uma maioria ao Partido Republicano Portugues, oficialmente para governo ou para o directorio, não deu de si, o mesmo sucedendo por Bragança, favorito para os reconstituintes, que ás 15 horas não sabiam nada certo ou incerto».

O jornal “A Capital” de 11 de julho abria a primeira página com o título “A eleição de Lisboa”. E em letras garrafais escrevia «A eleição de monarquicos por Lisboa foi uma consequencia da desunião dos republicanos. Não é um sintoma de força dos adversarios da Republica. É simplesmente, mais uma vez, a constatação de que os republicanos só se juntam quando a Republica está em perigo, esquecendo-se que ela não se defende só com as armas na mão, mas tambem pelo exercicio consciente do mais sagrado direito democrático: o da escolha dos representantes da nação. Que o facto constitua um aviso e sirva de exemplo a todos os republicanos».

A “Ilustração Portugueza” na edição de 23 de julho de 1921 (conforme foto que se publica a ilustrar este artigo) começou a divulgar o retrato dos deputados e senadores eleitos nestas últimas eleições legislativas. Neste caso, faz-se referência à eleição de três “Democráticos”: Afonso Costa, António Maria da Silva e Norton de Matos; e de três Liberais”: Brito Camacho, Tomé Barros Queirós e Ladislau Parreira.

Já com a certeza da vitória do Partido do Governo (Republicano Liberal), mas sem maioria absoluta, o “Diário de Lisboa”, na sua edição de 12 de julho, entrevista um candidato de cada um dos 4 partidos que foram derrotados neste ato eleitoral, para saber eventuais causas do insucesso e a atitude que vão tomar perante o governo, ao mesmo tempo que coloca o antetítulo “Caminha-se para uma revolução ou para a dissolução do novo Parlamento?”.

Curiosamente, o 1.º entrevistado, o Reformista general Gomes da Costa, diz que não entrará em nenhuma Revolução, apesar do chefe desse Partido, Machado Santos, ter dito na véspera que só lhe resta esse caminho (como sabemos, menos de 5 anos mais tarde, seria mesmo o general Gomes da Costa a iniciar a Ditadura Militar, com a Marcha para Lisboa, a partir de Braga, iniciada no dia 28 de Maio de 1926). O 2.º entrevistado, Tamagnini Barbosa, próximo de Sidónio Pais e representante do Partido Presidencialista diz que se algum movimento revolucionário for tentado o seu Partido manifestar-se-á como «um intransigente defensor do regime». O entrevistado seguinte foi o dirigente do Partido Socialista, Ramada Curto, que, quanto à revolução anunciada e questionada, disse «Nós não fazemos revoluções para conquistar o poder». Finalmente, Afonso de Macedo, do Partido Popular, que não conseguiu ser reeleito pelo círculo de Torres Vedras, acredita numa futura revolução ou na dissolução do Parlamento.

E na verdade, em 1926, ocorreria a chamada Revolução Nacional que marcaria quase meio século de ditadura, terminada apenas com o triunfo do “25 de Abril” de 1974.

publicado por viajandonotempo às 16:20

Junho 29 2021

O mês de junho de há um século foi passado na expectativa de que Portugal conseguisse um crédito de 50 milhões de dólares, capaz de resolver o grave problema financeiro que a participação na Primeira Grande Guerra provocou. Recordo que o Governo Provisório da República, por iniciativa do seu ministro das Finanças, José Relvas (o mesmo que proclamou, na varanda da Câmara Municipal de Lisboa, a República, ao princípio da manhã de 5 de Outubro de 1910), havia procedido a uma importante reforma monetária, criando, em maio de 1911, o escudo que substituía o real e valia mil vezes mais do que ele. Portugal conseguiu nos anos seguintes saldar a dívida pública herdada da Monarquia e encerrar as contas públicas com superavit. Mas a entrada de Portugal na Guerra perturbou enormemente a vida financeira do país e seria este problema que em 1928 levaria Salazar ao poder, primeiro como ministro das Finanças e, depois de 1932, como Presidente do Conselho de Ministros.

EMPRÉSTIMO DE 50 MILHÕES DE DÓLARES

Situação financeira na I República.png

A Questão Financeira foi intensamente sentida pela opinião pública portuguesa há cem anos (in Ilustração Portuguesa, n.º 800, de 18 de junho de 1921)

O fim da Guerra não trouxe sossego e tranquilidade aos antigos países beligerantes, pelo contrário afirmou-se tragicamente um conjunto de problemas, que passaram pelo agravamento do endividamento público, pelo desemprego de milhares de soldados desmobilizados, por problemas de abastecimento, pela inflação, desvalorização da moeda, agitação social e instabilidade política. Vários países com regimes demoliberais não foram capazes de resolver eficazmente estes problemas e caíram em regimes ditatoriais como foi precisamente o caso de Portugal, apesar de nessa altura (1926) alguns indicadores já permitissem a antecipação de melhores dias (em termos políticos e financeiros) para o regime português.

Mas fiquemo-nos por agora pelo mês de junho de 1921. Consultemos as informações relativas à questão financeira. Os dados são inseguros. Parece obedecer-se ao adágio popular “o segredo é a alma do negócio”! O jornal “Diário de Lisboa”, com a data de 11 de junho de 1921, na sua página 2, com o título “Vida Financeira” e os subtítulos “Repercussão do emprestimo dos cincoenta milhões de dollars” e “A operação que o governo português conseguiu nos Estados Unidos – Á volta dos câmbios” dá conta das hesitações e complexidade que há neste tão momentoso assunto e contesta que tal operação esteja envolvida em demasiado “silêncio” por parte das autoridades governativas:

«S. ex.ª o sr. ministro das finanças ainda não reputou chegada a oportunidade de revelar ao paiz o que de verdade haja sobre o assunto. Se é para evitar uma abalada cambial que impressione mais a nova praça, nada mais louvavel. Mas é para discutir se não seria acertado lançar desde já um bocadinho de agua na fervura da especulação, que não dizemos que se tenha feito mas é natural que venha a fazer-se com o afrouxamento produzido na ultima semana».

Esta questão chegou a gerar polémica entre a própria imprensa republicana, nomeadamente entre o Diário de Lisboa e O Século.

Na edição de 13 de junho de junho de 1921, o Diário de Lisboa, na sua primeira página escrevia: «O SECULO, que ainda há pouco elevou o seu preço de venda para $10, anda agora convidando o comercio para uma baixa geral de preços. Tudo leva a crer que o nosso presado colega não se feche na prudencia de Frei Tomás. Isto há de ser-lhe tanto mais fácil, quanto é certo que é ele agora quem domina os câmbios, fazendo deles uma espécie de papagaio de papel.

Muito desejaríamos que esta campanha de agora não venha a ter o mesmo exito da campanha pavorosa contra a tribu moageira, de que resultou, como presente para nós todos, o celebre pão João Luiz Ricardo, que era negro, indigerivel e rugoso como lixa».
Na mesma data, o Diário de Lisboa volta a informar os seus leitores sobre a questão do eventual empréstimo de 50 milhões de dólares, referindo que se negociava uma operação financeira com um grupo de banqueiros americanos. Entretanto, e ainda sobre o mesmo assunto, informava que o insigne republicano Afonso Costa se encontrava em Paris para intermediar essa questão.

E a polémica sobre o assunto prosseguia nos jornais “O Século” e o “Diário de Lisboa”. Neste último, e a este propósito, escrevia-se na 1.ª página da edição de 14 de junho, sob o título «Nós e “O Seculo” ou uma Calunia que se desfaz», o seguinte: «Lemos as palavras que nos apontavam á execração publica e nunca nos sentimos tão superiores a O Seculo.

Qual a razão de assim se atirar a nós? É que julga que queremos impedir a melhoria cambial que há uns dias se vem acentuando – melhoria que, na sua estulticia, ele julga inventada por ele para salvar o paiz de apuros e as finanças da empresa que o edita.

Ora nós, muito antes de O Seculo querer explorar em seu proveito o que é simplesmente um resultado da livre acção dos factores económicos e financeiros, já tínhamos falado duma próxima valorização do escudo, fustigando tambem os excessos da especulação sem escrúpulos. Foi, porem, o nosso eco de ontem que fez pular O Seculo

Ainda no Diário de Lisboa de 14 de junho, a propósito do empréstimo dos 50 milhões de dólares e das indemnizações de guerra da Alemanha a Portugal, é feita uma entrevista a Barbosa de Magalhães, membro da Comissão de Reparações da Sociedade das Nações.

Nesta entrevista Barbosa de Magalhães, um prestigiado advogado republicano que foi deputado constituinte, membro do governo e, mais tarde, bastonário da Ordem dos Advogados Portugueses, refere que a dívida da Alemanha a Portugal foi fixada em 0,75 do total que a Alemanha tem de pagar aos vencedores a título indemnizatório, quer em ouro, quer em bens. Entre os bens a que Portugal tem direito, estão – refere ele - “magnificos guindastes e outros aparelhos para o porto de Lisboa”. As reivindicações portuguesas baseavam-se nos prejuízos causados pelos submarinos alemães que afundaram muitos navios portugueses, antes e depois da declaração de guerra alemã, em 9 de março de 1916.

Quanto ao empréstimo de 50 milhões de dólares, Barbosa de Magalhães, nesta entrevista, dá a entender que está completamente acordado: «Um grupo de banqueiros americanos emprestou ao nosso governo esses milhoes de dolares (…) sem caução. É um emprestimo normal, cujas prestações serão pagas em determinados prazos». A entrevista serviu ainda para confirmar a posse para Portugal de todos os navios alemães apreendidos em fevereiro de 1916, o que esteve na origem da declaração de guerra da Alemanha a Portugal: «Eles já aí estão quase todos no Tejo e os que faltam chegarão em breve».

Já quase no fim do mês (29 de junho) o Diário de Lisboa dá nota de que circulam informações segundo as quais estariam a ser ultimadas as negociações para o empréstimo de 50 milhões de dólares. Mas os títulos que coloca ao cimo da peça jornalística evidenciam sérias dúvidas: “Que há sobre o emprestimo? Estão ultimadas as negociações?” E no último parágrafo concluem: «Repetimos – damos o nosso aplauso incondicional ao emprestimo, se ele é um beneficio verdadeiro para nós e não um acto impensado, cheio de ameaças para a nossa existencia. O nome do sr. dr. Afonso Costa é um belo sintoma de que podemos acalmar as nossas inquietações. Mas como ninguem que tenha a cabeça no lugar, deve ceder a outrem, por comodidade, o estudo dos assuntos que lhe interessam, nós, para que felicitemos, conscientemente, os homens que intervieram nas negociações do empréstimo, exigimos que nos mostrem as condições e clausulas que aceitámos».

Esta questão revelar-se-ia bastante complexa e frequentemente manifestaram-se desconfianças e suspeitas de haver "interesses" envolvidos em tal operação financeira, que acabou por não se realizar. Tão importante assunto chegou a fazer parte da ordem de trabalhos da Câmara de Deputados, tendo envolvido a intervenção de Cunha Leal, onde se anteciparam os perigos de uma derrocada financeira.

publicado por viajandonotempo às 19:42

Maio 31 2021

Mais uma Tentativa Revolucionária na Primeira República

A década de 1920 foi particularmente difícil para os países que estiveram diretamente envolvidos na primeira Grande Guerra. Para além das perdas humanas houve um enorme endividamento de Estado (também no caso português) que condicionou, e muito, a ação governativa. Não admira, por isso, que a instabilidade política tenha sido um ponto fraco da Primeira República portuguesa, que se agravou 100% após o fim da Guerra (1918). A instabilidade política não é mais do que o espelho das dificuldades financeiras e económicas que provocaram uma desgastante agitação social com evidentes consequências políticas. Recordamos hoje a tentativa revolucionária de 21 de maio de 1921 que provocou a demissão do 25.º governo republicano presidido por Bernardino Machado.

Il. Portuguesa n. 797, 28 de Maio de 1921.png

Constituição do novo governo saído deste golpe (in “Ilustração Portuguesa”, n.º 797, 28 de maio de 1921)

A Guarda Nacional Republicana foi uma autêntica “guarda pretoriana” do regime, tendo o seu Chefe de Estado-Maior, Liberato Pinto, chegado a desempenhar o cargo de Presidente do Ministério. Terá sido a retirada de poder e de influência à GNR que muito provavelmente terá estado na origem da intentona de que nos ocupamos hoje, que ocorreu em Lisboa no dia 21 de maio de 1921, há precisamente um século. Nesta data, algumas forças afetas à GNR tomaram posições no Parque Eduardo VII e na Rotunda, exigindo o fim do gabinete de Bernardino Machado, que não tinha sido nada simpático para com Liberato Pinto. Segundo se veio a apurar dias depois, os objetivos do golpe eram mais dois: a dissolução do Parlamento e a formação de um governo livremente escolhido pelo Presidente da República.

Este era, ao tempo, António José de Almeida (nasceu em Penacova, em 17-7-1866 e faleceu e Lisboa, no dia 31-10-1929) que foi o único presidente da 1.ª República que conseguiu cumprir integralmente o seu mandato de 4 anos (5-10-1919 a 5-10-1923).

Esta crise governativa, apesar de ocupar vários dias o interesse e as páginas dos órgãos de comunicação social, não surpreendeu verdadeiramente ninguém. Porque naquele contexto era o mais habitual. Porque os jornais já a adivinhavam. A 16 de maio já “A Capital” trazia para a primeira página o prenúncio de crise, sob o título “Governos de concentração”: «Todos os dias se fala em crise. / Umas vezes é por causa da substituição do Comandante da Guarda Republicana; outras vezes ainda porque o parlamento não se apressa a votar os orçamentos (…).». Mais à frente escreve-se «Quando cahiu o gabinete Liberato Pinto, estava toda a gente farta até aos olhos de governos de concentração. Reclamava-se vida nova. Acabou-se por fazer um novo governo de concentração sob a presidencia do sr. Bernardino Machado, que se vê doido para juntar os seus logares-tenentes. / Não nos iludamos. Se cahir o sr. Bernardino Machado, é natural que se experiencie de novo – um governo de concentração».

Recordemos, num breve parêntese, esse importante estadista da Primeira República, que foi Bernardino Machado. Nasceu no Rio de Janeiro (28-3-1851) e faleceu no Porto (29-4-1944) com 93 anos. Estudou e foi Professor na Universidade de Coimbra. Em termos políticos, depois de ter sido Ministro das Obras Públicas no 1.º governo de Hintze Ribeiro, aderiu ao Partido Republicano em 1903. No período da República fez parte do Governo Provisório como Ministro dos Negócios Estrangeiros e foi deputado constituinte. Seria duas vezes Presidente da República (entre 5 de outubro de 1915 e 5 de dezembro de 1917 e entre 11 de dezembro de 1925 e 31 de maio de 1926) e duas vezes Presidente do Ministério (entre 9 de fevereiro e 12 de dezembro de 1914 e entre 2 de março e 23 de maio de 1921).

A sua última chefia de governo terminou no dia 21 de maio de 1921, quando os militares saíram dos quarteis e ocuparam algumas zonas da capital, registando-se também o envolvimento de civis armados. Como sempre acontece em movimentos revolucionários deste género, havia enormes expectativas acerca do que se passava, quem é que estava por detrás dos acontecimentos e o que é que efetivamente pretendia. Mas uma coisa parecia mais ou menos certa, o povo de Lisboa mobilizava-se imediatamente para a defesa das instituições republicanas, como tinha feito aquando da ameaça monárquica de 1919.

Sobre o que, de facto, aconteceu na madrugada de 21 de maio de 1921, em Lisboa, o diário “A Capital” desse mesmo dia, escreve, sob o título “O que se passou de madrugada – A demissão do governo”, logo na sua primeira página: «De madrugada, forças da guarda republicana e do 1.º grupo de companhias da administração militar, assim como grupos de civis armados entraram no quartel de Campolide, onde estão aquarteladas a 5.ª e 6.ª companhia da G.N.R. e o Grupo de metralhadoras pesadas indo uma comissão delegada a casa do chefe de Estado, de quem solicitou audiencia. Recebida imediatamente essa comissão expôs ao sr. presidente da Republica a sua discordância com a marcha do governo e do parlamento. A essa hora estava reunido em casa do sr. dr. Antonio José de Almeida o conselho de ministros, tendo o sr. dr. Bernardino Machado, apoz demorada discussão, resolvido apresentar a demissão colectiva do governo, demissão que o sr. presidente da Republica aceitou, tendo logo de manhã chamado á sua residencia os “leaders” parlamentares, a fim de os ouvir. (…)».

Acerca da suposta causa do movimento, o mesmo jornal, mais adiante escreve: «Diz-se que o movimento foi devido ao sr. ministro da guerra pretender transferir varios oficiaes do 1.º grupo de companhias da administração militar, aquartelada, como se sabe na Cova da Moura. (…) / Corre também o boato, com insistencia, de que faziam ou fazem parte da junta directiva do movimento os sr. Liberato Pinto, Machado Santos, Carrazeda de Andrade, major Marreiros e capitão Pires Monteiro».

Entretanto, pelas 17 horas, chegou ao Terreiro do Paço uma força de cavalaria da Guarda Nacional Republicana, com o objetivo de impedir, a quem quer que fosse, a ocupação das arcadas.

O “Diário de Lisboa” de 21 de maio de 1921 ao informar o que se passou durante a noite na capital portuguesa refere que “no Parque Eduardo VII acamparam forças de artilharia, da administração militar e metralhadoras”. Diz ainda que se preparava um golpe de estado, que o governo está demissionário e que o Sr. Liberato Pinto, bem como Machado Santos, estão diretamente envolvidos no movimento.

O “Diário de Lisboa” de 23 de maio noticia também a concentração de tropas (todas as unidades da 1.ª Divisão dos Sapadores do Caminho de Ferro; 1.º grupo de Metralhadoras; Grupo de Artilharia a cavalo de Queluz; e Metralhadoras do Lazareto) no Alto da Ajuda, entre as 4h e as 10h da manhã, sob o comando do general Pedroso de Lima

Na sequência deste golpe tomou posse o 26.º governo republicano, presidido por Tomé de Barros Queirós, que esteve no poder pouco mais de 3 meses (entre 23 de maio de 1921 e 30 de agosto de 1921) e de que fizeram parte os seguintes ministros: o das Finanças era o próprio Tomé de Barros Queirós que já o havia exercido e que agora o acumulava com a presidência; o do Interior estava entregue ao general Abel Hipólito; o da Justiça e Cultos competia a José do Vale Matos Cid; o da Guerra foi entregue a Alberto Carlos da Silveira; o da Marinha exerceu-o o advogado Ricardo Pais Gomes (que já tinha desempenhado o mesmo cargo no governo de António Granjo, de 19 de julho a 20 de novembro de 1920; e manter-se-ia no governo seguinte, também presidido por António Granjo, de 30 de agosto a 19 de outubro de 1921); o dos Negócios Estrangeiros foi dado a Melo Barreto, que já o vinha desempenhando no governo anterior; o do Comércio, desempenhou-o, primeiro, António Granjo (até 10 de agosto), depois, foi Fernandes Costa (que já vinha do governo anterior); o das Colónias, exerceu-o Celestino de Almeida; o da Instrução Pública, Ginestal Machado (que também veio do governo anterior); o do Trabalho assumiu-o Júlio Ernesto de Lima Duque (já tinha exercido estas funções no governo de António Granjo); e o da Agricultura coube ao professor de Agronomia, Manuel de Sousa da Câmara.

 

publicado por viajandonotempo às 17:22

Julho 2021
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
27
28
29
30
31


ÍNDICE DESTE BLOG:
arquivos

Julho 2021

Junho 2021

Maio 2021

Abril 2021

Março 2021

Fevereiro 2021

Janeiro 2021

Dezembro 2020

Novembro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Tags

todas as tags

pesquisar
 
mais sobre mim
contador
subscrever feeds
blogs SAPO