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Maio 31 2018

SIDÓNIO PAIS FAZ AS PAZES COM A IGREJA

Sidónio Pais na Sé 15-5_ilustração Portuguesa

In “Ilustração Portuguesa”, 27 de maio de 1918

 

Não é novidade para ninguém que no período da Primeira República portuguesa, Igreja Católica e Governantes andaram de “candeias às avessas”, que deixaram indeléveis marcas no relacionamento entre o Estado e a Igreja.

Contudo, o interregno sidonista de há cem anos conseguiu, enquanto durou, suavizar as relações institucionais entre os governantes republicanos e a hierarquia da Igreja Católica.

Recordo que Sidónio Pais, opondo-se à Constituição de 1911, resolveu candidatar-se, na Primavera de 1918, a Presidente da República, promovendo, à margem das leis republicanas, uma eleição presidencial por sufrágio direto, que venceu (ele era também o único candidato), no dia 28 de abril de 1918, tornando-se o único Presidente da República eleito por aquele método, daí que se chamasse ao regime, no período sidonista, “República Nova”.

Mas voltando às boas relações com a Igreja, estas melhoraram significativamente no dia 15 de maio de 1918, quando Sidónio Pais participou, nas exéquias que se celebraram na Sé de Lisboa, pelos nossos soldados que haviam morrido, quer em África, quer em França e em grande número no dia 9 de abril, na Batalha de La Lys.

A revista “Ilustração Portuguesa” foi, desde o verão de 1914, dando notícia da intervenção portuguesa na Primeira Guerra Mundial, primeiro em Angola e Moçambique, e depois de janeiro de 1917, na Frente Ocidental.

É da sua edição de 27 de maio de 1918, que transcrevemos o apontamento de reportagem, sobre a presença de Sidónio Pais, como Presidente da República, que ao abrir a página 407, por baixo do título “Sufragando os Mortos pela Patria”, aparece numa foto, acompanhado do representante do Patriarca de Lisboa e seguido do capitão Cameira, a entrar na Sé, onde foi assistir aos ofícios pelos nossos soldados.

«Pela primeira vez ao cabo de oito anos de Republica, encontraram-se juntos na mesma grande cerimonia religiosa os representantes de dois poderes que a lei divorciou: o espiritual e o temporal. A Sé de Lisboa revestiu-se de crepes e encheu-se de fieis para comemorar os heroes portuguezes que nos talados e revolvidos campos de França e nas paragens longinquas e ardentes da Africa sacrificaram as suas vidas em holocausto ao futuro da Patria. Aos solenes sufragios presidiu o cardeal patriarca, rodeado do seu cabido, e assistiu o chefe do Estado com os ministros, as autoridades civis e militares, muitas personalidades conhecidas ou eminentes, enorme concurso de povo e entre este não poucas senhoras e creanças vestidas de luto... Ao pulpito, para traçar o elogio dos gloriosos soldados que sucumbiram na refrega, subiu o sr. bispo de Portalegre, D. Manuel Mendes da Conceição Santos, o mais novo e um dos mais cultos prelados. O sr. dr. Sidonio Paes tomou logar na capela-mór, ocupando a tribuna da epistola, outr'ora destinada ao soberano e sua familia. Cantou-se musica de Perosi, o celebre mestre-de-capela de Pio X, e em muitos rostos correram lagrimas de saudade pelos que foram e não voltam mais, – moços, tantos d'eles, cuja magnifica juventude irá reflorir nas gerações de ámanhà pelas quaes tão generosamente se imolaram… O presidente da Republica foi recebido e despedido com todas as honras inherentes á sua magistratura suprema. O chefe do Estado e o chefe da Egreja portugueza, o cardeal Belo, apertaram-se cordealmente as mãos. Acima de todas as dissenções e mesquinharias paira imortal e augusta a gloria dos que caíram por nós todos e que bem merecem a reconciliação e a paz dos portuguezes…»

 

 

publicado por viajandonotempo às 08:13

Abril 09 2018

AS DIFICULDADES DO CEP, NO DIA 9 DE ABRIL DE 1918

Batalha de 9 de abril2.png

 

Os portugueses não podem esquecer as horas e os dias dessa terrível batalha, iniciada na madrugada do dia 9 de abril de 1918, porque La Lys marcou tragicamente a participação portuguesa na “Frente Ocidental” da 1.ª Grande Guerra, tantos foram os mortos, os feridos e os desaparecidos em combate.

Nesse dia, a frente de combate estendeu-se por 55 quilómetros, estando o lado dos Aliados guarnecido pelo 11.° Corpo Britânico, do qual faziam parte 84000 homens, entre os quais cerca de 20000 portugueses que integravam a 2.ª divisão do Corpo Expedicionário Português (CEP), superiormente comandado pelo general Gomes da Costa. Oito divisões do 6.º Exército Alemão pretendiam concretizar a ofensiva alemã, que visava ultrapassar o rio Lys e tomar as cidades de Calais e Boulogne-sur-Mer.

Os alemães, em superioridade numérica (reforçados com a transferência de milhões de homens da Frente Oriental, que acabou devido ao Tratado de Paz de Brest-Litovsk assinada no mês anterior), iniciaram um violento bombardeamento de artilharia cerca das 4 horas e 15 minutos da madrugada e apenas em 15 minutos destruíram todas as comunicações por fio entre a “frente” e o quartel-general português. O assalto às trincheiras portuguesas ocorreu por volta das 7 horas. Quatro divisões alemãs, isto é, cerca de cem mil homens, avançaram contra 20000 portugueses.

Apesar de vários exemplos de resistência verdadeiramente heroica, especialmente por parte da 4.ª brigada portuguesa, a verdade é que os soldados portugueses são submersos por esta ofensiva maciça. As tropas portuguesas, ao longo das intermináveis primeiras quatro horas das trinta que a batalha durou, perderam à volta de 7500 homens, contando mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros, entre os quais 327 oficiais e muitas centenas de sargentos.

Nas trincheiras, onde a sobrevivência era dura (frio, fome e humidade), estavam soldados portugueses misturados com os ingleses numa convivência difícil, dada a dificuldade de comunicarem por desconhecimento mútuo das línguas (é preciso lembrar que muitos soldados portugueses nem o ensino primário tinham e, por isso, o desconhecimento da língua inglesa era absoluto).

O exército português desmoralizado e inferior em número foi esmagado. Entre as várias razões que explicam essa estrondosa e dramática derrota são, normalmente, apontadas as seguintes: o facto das tropas inglesas terem recuado nas suas posições, deixando mais vulneráveis os flancos do CEP; o golpe militar sidonista de dezembro de 1917, que quase abandonou os combatentes portugueses à sua sorte, não fazendo a prevista substituição dos soldados portugueses na “frente”; Sidónio Pais chamou a Portugal muitos oficiais com experiência de guerra que não regressaram ao seu posto de comando e lá fizeram falta; o armamento alemão era muito melhor em qualidade e quantidade que o português e o inglês; e o ataque alemão foi desferido no dia em que as tropas portuguesas tinham recebido ordens para irem para posições à retaguarda.

A terminar, uma palavra para a situação de guerra que os portugueses viveram também nas colónias africanas de Angola e Moçambique, que foram atacadas por soldados alemães e, obrigaram, por isso, ao envio de cerca de 31000 expedicionários metropolitanos e cerca de 3000 africanos para as defender.

Finda a Guerra, Portugal teve lugar nas negociações para a paz, na condição de vencedor, mantendo as suas colónias durante mais cinco décadas e meia, mas perdeu a liberdade e a democracia durante quase meio século.

publicado por viajandonotempo às 16:07
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Fevereiro 28 2018

O alferes de cavalaria Bernardino Machado integrou o CEP

O alferes Bernardino Machado em França_1917.png

  O alferes Bernardino Machado em França, em1917

A 1.ª Guerra Mundial tocou a todos. Até o filho mais velho do então Presidente da República, Bernardino Machado, nela participou. Na frente de batalha, vendo-se impedido de atuar enquanto militar de cavalaria, ofereceu-se para exercer a função de oficial sinaleiro, com responsabilidades na montagem e segurança das linhas de comunicação, uma atividade também de alto risco. Durante a Batalha de La Lys, no dia 9 de Abril de 1918, sofreu com gravidade os efeitos dos gases, tendo sido evacuado para cuidados hospitalares.

É sobre a sua participação na Guerra que trata um artigo publicado no jornal “República” de há cem anos (28 de fevereiro de 1918), que, de seguida, em parte se transcreve, quando seu pai estava exilado em França, por imposição da autoridade sidonista, que então governava o país.

«Visto que tanto se malsinou a boateou malévolamente quanto á situação do filho mais velho do snr. Dr. Bernardino Machado, ao tempo em que êste estava em pleno e constitucional exercício das suas funções de presidente da República, e que fazia parte do corpo do exército português em França, justo é que se fique sabendo quais são e teem sido as funções que êle tem exercido. Foi êle proprio, o snr. Alferes de cavalaria Bernardino Machado que o disse ao Jornalista que o entrevistou em França e cuja entrevista foi inserta na Capital de 25 do corrente e á qual não tiveramos ainda ensejo de fazer referencia, devido á estreiteza de espaço de que dispomos e aos complexos assuntos que dia a dia vão chamando a nossa atenção.

Assim, vêmos pelas declarações do snr. Alferes Machado, que êle partiu para França em 2 de julho do ano passado, indo para o grupo de esquadrões (…)

Pertencia êle ao regimento de cavalaria 4, e o grupo para que foi era o 2, constituído por uns 800 homens. Depois foi para sinaleiro da artilharia nas seguintes circunstancias: - como o grupo de esquadrões não tinha nada a fazer, dadas as condições em que se está fazendo a guerra de frentes, foi dissolvido por uma ordem do quartel general do C.E.P., sendo, com as praças que o constituíam, formadas depois as companhias de ciclistas. A seguir, saiu depois uma circular aos subalternos de cavalaria convidando, os que quizessem servir como sinaleiros de artilharia e fazerem a respectiva declaração. O snr. Alferes Machado foi um dos que se ofereceram, indo então fazer a escola de sinaleiro, durante 18 dias, apenas, na pequena povoação de Roquetoir, proximo de de Aix-sur-la-Lys. Foi durante o tempo em que a cavalaria esteve inactiva que o snr. alferes Machado fez serviço no quartel general na censura de correspondência, onde  o foi encontrar o tal convite que ele se apressou a aceitar. Estava êle no front havia três meses; hoje está lá há oito, como oficial sinaleiro de artilharia, cujas funções consistem em manter as comunicações, velar pela segurança das linhas, percorrê-las incessantemente, cuidar da disciplina das praças sob o seu comando, e ver o que elas fazem.

“Este serviço – exclareceu modestamente o snr. alferes Bernardino Machado – não é comparavel em perigo ao da infantaria nas trincheiras, mas o risco ainda assim não é pequeno, vendo-se os sinaleiros ás vezes em palpos de aranha, pois que estão na zona perigosa, tendo de a percorrer a toda a hora, muitas vezes debaixo de fogo das metralhadoras inimigas”

Tal é a situação na frente de batalha do filho do snr. dr. Bernardino Machado, a quem a calunia e o ódio apontavam como um… emboscado

publicado por viajandonotempo às 06:43

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