VIAJANDO NO TEMPO...e no espaço!

Setembro 29 2018

André Francisco Brun

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Oficial do Exército, escritor, humorista e dramaturgo, André Francisco Brun integrou o Corpo Expedicionário Português e partiu para França em 18 de Abril de 1917

 

Se houve pessoas, militares incluídos, que eram contra a participação portuguesa no palco europeu da Grande Guerra, também houve aquelas que insistentemente pediam a sua mobilização. É o caso de André Brun, a que a imprensa do dia 15 de agosto de 1918 faz repetida referência, dado o seu regresso a Portugal para gozo de licença.

O Jornal “A Situação”, diário republicano da manhã, precisamente na edição dessa data, na primeira página, dá a notícia do regresso a Portugal do major André Brun, prestigiado professor e escritor que tinha ido para a Guerra, em França, no ano anterior (1917).

A nota informativa explica a razão do seu regresso: gozo de licença de campanha, pois há 466 dias que se encontrava na Flandres, integrado no Corpo Expedicionário Português, 404 dos quais nas primeiras linhas de combate, assumindo o comando de um batalhão, durante dez meses e meio e tão bem o fez que lhe valeu a promoção, por distinção, a major e o direito à Cruz de Guerra com que foi distinguido.

E se não tinha mais tempo de combate foi porque não o deixaram ir mais cedo, conforme explica o jornal “A Capital”: «André Brun não partia. Mas esse facto não era devido à sua vontade. Não partia porque não o mandavam partir. (…) Esfalfava-se a solicitar que o mandassem para França, que o mandassem o mais depressa possível, embora ainda não fosse a sua vez de marchar. Sete vezes renovou esta solicitação. Sete vezes! E da última foi o nosso diretor que se dirigiu ao sr. Norton de Matos, pedindo-lhe que não demorasse mais o deferimento aos pedidos de André Brun, cuja reputação era todos os dias anavalhada por creaturas que nunca foram nem irão para o campo de batalha.»

Nascido aos 9 de Maio de 1881, em Lisboa, onde também morreu aos 22 de Dezembro de 1926, Andre Brun foi um dos nossos escritores alegres mais populares. Autor de algumas dezenas de livros, foi no teatro, como ele próprio declara numa autobiografia (in Consultório Psicológico), que alcançou «os mais lisonjeiros êxitos e alguns indispensáveis proventos. Mas, de par com esses livros, muito da sua obra ficou para sempre nas páginas dos diversos jornais em que colaborou, ora assinando com o seu nome, ora usando pseudónimos como Felix Pevide, O Porteiro da Geral, Gil Vicente da Costa, Cyrano, etc. Ao André Brun humorista alguns porventura preferirão o que escreveu em “A Malta das Trincheiras”, de que ele próprio afirma: “De todos os meus livros prefiro sentimentalmente A Malta das Trincheiras pelo muito que de mim mesmo lhe anda ligado”.»

É desse livro que extraímos a seguinte passagem: «Longe de mim a ideia de amesquinhar o esforço dos primeiros combatentes em França; mas, durante muito tempo, a permanencia n’uma guerra de trincheiras, em sectores relativamente calmos de que certa nervosidade destrambilhada vinda do alto pretendia fazer sem metodo sectores de verdadeiro combate, não permitiu que se posessem á prova senão a capacidade de adaptação que distingue a nossa raça, sempre atravez dos seculos a abandonada de alguem, e aquelas qualidades passivas de resignação que a Historia reconhece ao soldado portuguez. Dos dias terríveis de Abril até aos do alvorecer de Agosto, em que me separei da frente portuguesa, só o esforço individual de certos manteve a continuidade do esforço anterior, reduzida ainda ao trabalho obscuro da malta das trincheiras. Acompanhei bem de perto essa arraia meúda para a não amar e não a estimar. Foi com ela que ganhei os meus primeiros galões bem ganhos. Sei o que ela vale o que ela fez e o que ela podia ter feito no instante próprio, se os chefes combatentes (…) tivessem melhor atentado na importancia das suas funções humanas e cuidado com maior carinho e mais inteligente disvêlo do moral de tropas, já de si ignorantes e propensas á estagnação de espirito e fatalismo atavico e, para mais, atiradas para longe da terra onde tinham as rasões logicas do seu ser».

publicado por viajandonotempo às 21:17

Agosto 20 2018

Um dos seus ataques sobre um submarino alemão

 

“Augusto de Castilho” foi um barco que esteve ao serviço da Marinha de Guerra Portuguesa durante a Primeira Grande Guerra. Era um navio patrulha de alto mar, de 1909, com uma tripulação de 42 marinheiros e com 49 metros de comprimento.

Um dos ataques em que se envolveu naquela Guerra ocorreu no dia 21 de Agosto de 1918, há cem anos, ao largo de Cascais. A descrição desse ataque é feita pelo seu comandante, o primeiro-tenente Fernando de Oliveira Pinto, que havia assumido o comando há dez dias, por falecimento do anterior comandante, 1.º tenente Vasco Artur da Costa Cabral.

Em declarações a “O Século”, publicadas na edição de 23 de agosto de 1918, Oliveira Pinto descreve assim os factos:

«No dia 18 saiu o “Augusto de Castilho” do Funchal, comboiando o vapor “S. Miguel”. A viagem corria com muito bom tempo, sem que nada de anormal se passasse até ao dia 20 á tarde, em que avistámos muitos destroços de algum navio afundado, que eram arrastados pela corrente contraria ao nosso rumo.

Então, aproximava-se o barco da barra de Cascaes. Como não se avistassem os faroes, resolvi que o navio ficasse pairando á entrada do nosso porto, aguardando que a densa cerração [nevoeiro espesso] se levantasse, para demandarmos a bahia.

O São Miguel, ao ver aproximar-se a cerração, aumentou a velocidade, conseguindo fundear em Cascaes.

Ao romper de 21, começou o “Augusto de Castilho” a tentar aproximar-se da terra, embora persistisse a cerração. Por volta das 8 horas, indo o navio a meia força das maquinas, o vigia acusou ver qualquer coisa semelhante a uma pedra, que apontava pela amura de estibordo, para logo corrigir, dizendo ser um barco de vela.

Foi então que o imediato sr. Alberto Augusto Xavier, notificou que era simplesmente um submarino, o que se encontrava á vista. Saiamos da cerração. Só depois de ter a certeza que se tratava de um submarino inimigo, por ele não ter feito o sinal inter-aliado de reconhecimento, e mesmo porque, muito bem se notava na sua silhueta as linhas de tipo alemão, mandei romper fogo, estimando para a distancia de 1:000 metros, que foi decrescendo para 800 por aqueles tiros serem longos. O submarino era armado de uma peça bem mais poderosa que as nossas, colocada por ante avante da torre. Navegava em meia submersão com rumo crusado ao nosso.

O “Augusto de Castilho” passou imediatamente a navegar com toda a velocidade, não deixando sair da prôa o boche, que a principio, parece, não tinha avistado o nosso barco, porque não alterava o seu rumo.

Foi n’essa ocasião que nitidamente se viu um dos seus marinheiros correr de vante para ré. Então, o submarino, aumentando a sua velocidade, manobrou a virar a popa e fugir do nosso navio que continuava na sua perseguição. O nosso fogo era certeiro, porque as pontarias eram feitas cuidadosamente. Duas granadas foram vistas arrebentar junto á base da torre, guinando, outra vez, o submarino para estibordo de fórma a atravessar-se na prôa do “Augusto de Castilho”. Era a ocasião propicia para sofrermos o ataque do boche. Mandei logo intensificar o fogo e aumentar a velocidade, de fórma a tentarmos abalroal-o. Trez outras granadas estalaram no seu costado: uma acertando na torre, e duas no casco, acima da linha de flutuação. Foi n’esse momento que todos nós vimos bem claramente o boche adornar um pouco e mergulhar com presteza. Pudemos ver que ele era dos poderosos, d’esses ultimamente lançados, com mais de 1.500 toneladas.

Como o “Augusto de Castilho” tem pouca velocidade, seria imprudente continuar a perseguição, porque nos iriamos expôr, sem necessidade, a um torpedeamento. Tomámos rumo do porto, largando as caixas de fumo, que encobriram logo o navio (…)».

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"Ilustração Portuguesa" de 28 de outubro de 1918, alusiva ao afundamento do "Augusto de Castilho"

 

Este navio patrulha teria o seu fim no dia 14 de outubro de 1918, afundado por um submarino alemão, quando escoltava o vapor S. Miguel, em viagem entre o Funchal e Ponta Delgada, com 206 passageiros a bordo. Tendo partido ao pôr do sol do dia 13 de outubro, na velocidade de cruzeiro de 9 nós, às 06h15 do dia seguinte ouviu-se o primeiro tiro contra o vapor S. Miguel, dado por um submarino alemão. Para proteger o navio português e esgotadas as caixas de fumo que lançara para despistar o inimigo, o Augusto de Castilho avançou diretamente sobre o submarino alemão, passando a receber o fogo inimigo e dando tempo ao vapor para se distanciar. Após duas horas de combate, com vítimas mortais, a artilharia danificada, as munições praticamente esgotadas, perdidas também as comunicações, o navio imóvel, rendeu-se. Um último tiro do submarino, entretanto, vitimou fatalmente o comandante heroico Carvalho Araújo.

 

publicado por viajandonotempo às 09:53

Julho 31 2018

Bombardeamentos alemães aos arquipélagos portugueses

Uma vez declarada a Guerra por parte da Alemanha a Portugal, em 9 de março de 1916, os governantes portugueses sabiam que podiam esperar ataques por parte das forças militares alemãs em qualquer área do território português, quer na metrópole, quer nas ilhas ou nos territórios coloniais africanos, onde a guerra já lavrava, desde o início do conflito (verão de 1914).

Fora dos territórios africanos portugueses, e apesar de toda a vigilância que as forças da Marinha de Guerra Portuguesa faziam, houve vários bombardeamentos, nomeadamente ao Funchal e a Ponta Delgada, capitais da Madeira e dos Açores, respetivamente.

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Bombardeamento ao porto do Funchal, in “Ilustração Portuguesa”, de 1-1-1917

A 3 de dezembro de 1916 tem lugar, pela primeira vez, o ataque de um submarino alemão a território nacional com o bombardeamento do porto do Funchal, e da cidade, que causou bastantes estragos e dezenas de mortos, sobretudo entre os tripulantes dos navios atingidos, obrigando também os habitantes da cidade a fugirem.

A “Ilustração portuguesa” de 1 de janeiro de 1917, donde extraímos a passagem que se segue, traz a reportagem daquelas duas horas de guerra que o submarino alemão desencadeou.

«Os alemães não perdem um só ensejo de nos provocarem e, se eles pudessem realisar um desembarque que fosse nas nossas costas ou nas das nossas ilhas, ha muito que o teriam feito. Era esse o seu proposito evidente no Funchal. O unico navio de guerra que ali se encontrava era a canhoneira franceza “Surprise.” Entrara havia meia hora, já seguida naturalmente pelo submarino que a torpedeou com tanta rapidez e tão a coberto das vistas de terra, que, ouvindo o estampido e vendo o navio afundar-se, todos imaginaram que se tratava apenas de uma explosão a bordo. Atracada á “Surprise” estava uma barcaça com carvão, da casa Blandy, tripulada por 25 homens, dos quaes morreram 7, alem do sr. Henrique Teixeira, empregado da mesma casa. Da canhoneira franceza morreram o seu comandante, o capitão Ladonne, e dois oficiaes com 26 marinheiros. Volta-se depois o submarino contra o vapor francez “Kangoroo” e mete-o tambem no fundo, de nada lhe valendo o heroico esforço de dois dos seus tripulantes que sobre ele fizeram alguns tiros com uma pequena peça postada á pôpa, passando o navio pirata por esta sem que infelizmente fosse atingido por qualquer d'esses tiros, indo em seguida torpedear o vapor inglez “Dacia” que não tardou tambem a submergir-se e cujos tripulantes e bem como os do “Kangoroo” foram salvos graças á sua propria coragem e ao pronto e valioso auxilio que de terra lhes prestaram. E estava-se na salvação de tanta gente, no recolhimento dos mortos, quando o submarino voltou ao ataque. A bateria do caes abriu fogo sobre ele, mas a agitação do mar não permitia alvejal-o bem. O barco inimigo respondeu-lhe disparando sucessivas granadas sobre a cidade. Ao fogo da bateria veiu juntar-se o do forte. Foi um violento tiroteio que abalou profundamente a cidade, produzindo muitos estragos e obrigou os seus habitantes a despovoal-a. Duas horas durou essa luta entre o pirata e a artilharia de terra, que não fraquejou. Se não lhe inflingiu maior dano, fel-o desistir do atrevido ataque que ninguem sabe até onde iria parar se não fôra tão viva a resistencia. Toda a vigilancia é pouca nas nossas costas contra as investidas traiçoeiras dos alemães. N'alguns pontos o mar, n'esta quadra é tão revolto, que não os deixa operar. A oeste dos Açôres, por exemplo, não se afoitam eles. A navegação da America tem-se feito normalmente sem que nenhum periscopio se aviste n'aquelas aguas em cachão. O mez passado transitaram por ali mais de 20 navios sem novidade. Entretanto, outros pontos ha, em que não se dispensa uma defeza cuidadosa e aturada e para esses é que o paiz reclama a atenção do governo.»

O jornal “Repulica” de 7 de julho de 1917, na sua primeira página, dá o alerta de o Funchal ter sido novamente ameaçado por um submarino alemão nos primeiros dias de julho mas, dessa vez, porém, foi repelido a tiro por uma patrulha da marinha; reapareceu uma hora mais tarde próximo do porto, voltando a ser perseguido pelas patrulhas, contra uma das quais largou um torpedo, que não atingiu o alvo.

Também Ponta Delgada, capital dos Açores, na madrugada do dia 4 de julho de 1917, foi atacada por um submarino alemão, tendo esta cidade sido defendida pelo navio americano “Orion”, que se encontrava no porto para reparações.

O móbil do bombardeamento inimigo terá sido a circulação de notícias de que anunciavam a criação de uma base militar inglesa no arquipélago.

No próprio dia dos acontecimentos, “A Capital” traz uma pequena notícia na primeira página, sob o título “Os Boches / Ponta Delgada é bombardeada por um submarino alemão” com a seguinte informação: «O sr. ministro da marinha leu hoje nas camaras o seguinte telegramma: “Ponta Delgada, ás 10 e 5 – Hoje, ás 4 horas, um submarino allemão, que appareceu em frente do porto disparou para terra alguns tiros que, ao que consta provocaram ferimentos pessoaes e uma morte. A bateria de terra e um transporte americano abriram fogo, tendo o submarino retirado para fóra do alcance da artilharia, mantendo-se fóra do porto”».

No dia 5 de Julho, “A Capital” dava novos pormenores sobre este ataque alemão à capital açoriana: «O bombardeamento de Ponta Delgada / Uma mulher morta, quatro pessoas feridas e um edificio destruído / Ponta Delgada, 5 – Ás 4 horas da manhã de hontem appareceu de subito n’este porto, um submarino allemão, que disparou sobre a cidade oito granadas, duas da quaes cahiram nos arrabaldes, em Fajã de cima, fazendo destroços. / As baterias de terra responderam, assim como o transporte americano Orion, armado em cruzador auxiliar, que fez fogo quinze vezes, pondo-se o submarino fóra do alcance, mas conservando-se á superficie. / As granadas allemãs mataram uma rapariga, feriram quatro pessoas e derrubaram uma casa, causando ainda outros estragos. / Pouco depois do bombardeamento, entrou no porto o navio italiano Napoli, que seguia de Nova York para a Italia com passageiros. No porto estão cinco navios estrangeiros. / O submarino é de cerca de 500 toneladas e tem uns 20 homens de tripulação».

Casa atingida bombardeamento P. Delgada_julho 1917

Uma das casas atingidas pelo bombardeamento de Ponta Delgada, in “Ilustração Portuguesa” de 20 de agosto de 1917

Também a “Ilustração Portuguesa” de 20 de agosto de 1917, um mês e meio depois da ocorrência, dedica uma página ao bombardeamento de Ponta Delgada e divulga algumas imagens dos estragos, de pedaços de uma granada utilizada no ataque e do comandante do “Orion” que se bateu de forma valorosa contra o inimigo alemão.

«Ainda não esqueceu nem esquecerá tão depressa o atrevido ato de um submarino alemão que bombardeou Ponta Delgada, matando uma mulher, ferindo tres e causando prejuizos materiaes. Uma bataria de terra, instalada na Mãe de Deus, e o transporte americano Orion fizeram intenso fogo sobre o pirata que se viu obrigado a safar-se. Era o submarino de grandes dimensões U-7 que apareceu outra vez no dia seguinte defronte da ilha, mas que desistiu de novo ataque, vendo que o Orion se preparava para lhe responder com as suas quatro peças, se fosse preciso».

 

 

 

publicado por viajandonotempo às 09:03

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