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Setembro 30 2010

ESTÁ AÍ O CENTENÁRIO DA REPÚBLICA


Em 1910 - há precisamente cem anos atrás - a realidade económica, política e social do nosso país era profundamente diferente da actual. A Monarquia portuguesa era constitucional, mas estava profundamente desacreditada. Longe do povo, incapaz de resolver os principais problemas do País e do Império, as esperanças voltavam-se todas para a instauração da República.

Os republicanos prometiam um "mundo novo", queriam instruir o povo e trazê-lo à participação política, melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e fazer um Portugal mais próspero.

O 5 de Outubro de 1910 foi um dia de renovada esperança para Portugal.

Por isso, cem anos depois, um pouco por todo o país, celebra-se festivamente o 1.º Centenário.


Cartaz do Centenário da República em Valongo

 


O povo aplaudiu a Carbonária republicana. O novo regime ia sendo proclamado por todo o País. As elites urbanas e rurais aderiram efusivamente ao novo regime e quiseram republicanizar o povo. Numas localidades foi mais fácil, noutras a resistência monárquica manteve-se activa.

Regra geral, o povo aceitou o regime republicano como sinal de mudança e de muita esperança. As contas públicas equilibraram-se, surgiu nova bandeira, novo hino, nova moeda. Apostou-se muito na instrução de rapazes e raparigas. Por todo o lado apareceram jornais de fervor republicano. O clero sofreu algumas humilhações e perdeu património e importância social. O País mexeu nas suas estruturas mais profundas.

Contudo, nem tudo foram "rosas"! Manteve-se sempre uma persistente oposição monárquica, houve divisão entre os republicanos e, pior que isso, surgiu a 1.ª Guerra Mundial em que Portugal participou, em África (para defender as suas colónias) e na Europa (Frente Ocidental, ao lado da nossa velha aliada, Inglaterra).
Esta participação foi verdadeiramente dramática para Portugal pelas suas consequências. Desequilíbrio financeiro, inflação galopante, desvalorização do escudo, caos social e uma  insustentável instabilidade política decretariam o fim mais que certo da Primeira República, com a implantação da Ditadura Militar (1926) que, pouco depois, evoluiria para o "Estado Novo" (1933-1974).

Mas a I República valeu pelo esforço de politização do povo que nunca foi tão tentado nem conseguido como nessa escassa quinzena de anos que durou.

Mesmo alguns concelhos do interior, onde o rural se sobrepunha ao urbano, tiveram experiências de republicanização verdadeiramente modelares. Foi o caso do concelho de Ansião, no norte do Distrito, que logo no dia 7 de Outubro ali proclamou a República, desde a varanda do edifício da Câmara Municipal, perante muito povo que se juntou no largo em frente.

Aí se fundou, em Junho de 1911, a Associação de Propaganda e Defeza Republicana do Concelho de Ancião, que foi um verdadeiro alfobre de notáveis republicanos. O jornal que fundaram e mantiveram como seu órgão oficial a que chamaram O Cavador foi o melhor instrumento da sua lavoura, cuja “sementeira” se efectuou de diversas maneiras, mas sempre com o mesmo sentido - a republicanização do povo. Esses republicanos, insignes representantes da elite local, fizeram conferências e acalorados discursos, no tempo em que existiu a Associação e mesmo após o seu desaparecimento, normalmente no desempenho da profissão, do cargo, ou participando simplesmente em festas políticas e cívicas (sobretudo, em efemérides particularmente significativas para a República, como, por exemplo, o 5 de Outubro, o 31 de Janeiro, ou o 1.º de Dezembro), que eram aproveitadas para jornadas de próspera propaganda republicana, em que, não raro, participavam republicanos de todas as facções, pondo de parte a luta partidária, em favor da união pelo ideal do regime que todos, abnegadamente, diziam perfilhar. No tempo da propaganda, e para esclarecer o alcance e importância benéfica das leis republicanas, foram incansáveis na promoção de festas e comícios, onde procuraram envolver empaticamente o povo, pretendendo que a República substituísse a Igreja Católica no coração popular.

Quanto às colheitas dessa intensa propaganda republicana, poderão não ter sido as desejadas, mas lá que houve frutos do seu trabalho, isso houve. A participação política por parte da população residente no Concelho tornou-se mais intensa (quando comparada à postura dos cidadãos eleitores dos concelhos vizinhos perante eleições, e mesmo comparada ao resto do País); a alfabetização aumentou substancialmente no Concelho e no seu Círculo Escolar; o próprio clero do Concelho, na sua maioria, aceitou colaborar com o novo regime político e o povo envolveu-se, em grande número, nas iniciativas dos republicanos.

Cartaz do Centenário da República em Ansião


Nos próximos dias 4 e 5 de Outubro Ansião vai comemorar festivamente o Centenário da República com o lançamento de uma publicação alusiva à efeméride e a inauguração da exposição “A Chegada da República” no dia 4 (às 21 e 22 horas respectivamente), e a partir das 15 horas do dia 5 de Outubro três conferências: “5 de Outubro – Porquê?” pelo Dr. António Lopes (Director do Museu Maçónico); Republicanização no Concelho de Ansião” pelo autor deste post; e “A história desconhecida da I República”, pelo Dr. Luís Bigotte Chorão.

publicado por viajandonotempo às 23:26

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