VIAJANDO NO TEMPO...e no espaço!

Março 31 2021

O único partido português que sobreviveu da Primeira à Terceira República

Na sequência do triunfo da Revolução Bolchevique, na Rússia, em outubro de 1917, que, assim, se retirava da Primeira Grande Guerra e implementava pela primeira vez na História da Humanidade, um regime político que apostava na igualdade de todos os homens com a coletivização de toda a propriedade, seguindo aquilo que Marx e Engels apregoavam, constituir-se-iam vários partidos comunistas na Europa, na Ásia e na África, com o objetivo de concretizar o que havia sido determinado pelo 2.º Congresso do “Komintern”, em Moscovo (julho de 1920): os partidos socialistas e sociais-democratas deveriam abandonar o reformismo para aderirem ao princípio revolucionário que procurava levar, o mais rápido possível, o comunismo a todos os países do Mundo. A 6 de março de 1921, há um século, seria fundado no nosso país o Partido Comunista Português.

A partir de finais de 1920, promoveram-se várias reuniões nos meios sindicais, onde facilmente se adivinhava existir a base social de apoio de um eventual partido comunista. Entretanto, na Europa e no Mundo, iam surgindo vários partidos comunistas encorajados com o triunfo soviético. Na Alemanha, em 1919; na França, na Espanha, na Grã-Bretanha e no Uruguai, em 1920. Em dezembro desse ano, constituiu-se a Comissão Organizadora que havia de preparar o nascimento do Partido Comunista Português (PCP), começando a elaborar, no início de 1921, as suas bases orgânicas que estavam prontas no mês de fevereiro.

A 6 de março 1921, um conjunto de sindicalistas revolucionários e anarcossindicalistas, muito ativos nesse período da Primeira República, funda o PCP, de que se tornaria primeiro Secretário-Geral, José Carlos Rates, um homem com largas tradições no sindicalismo, mas que em termos políticos se mostrou um pouco incoerente e instável, tendo sido, por exemplo, sidonista e comunista. É por isso facilmente percetível que, poucos anos depois (1925), tenha sido afastado do PCP, que conheceu, então, um período mais conturbado.

A primeira sede do PCP foi na capital, em Santa Maria Maior, mas ainda nesse ano, surgiriam Centros Comunistas no Porto, em Évora e em Beja. O número de filiados foi aumentando rapidamente.

Nos finais de 1921, o Partido virou-se também para a Juventude, e promoveu a edição dos primeiros artigos de inspiração comunista no nosso país, tendo iniciado, ainda nesse ano, a publicação de “O Comunista”, como órgão de comunicação do Partido, e de “O Jovem Comunista”, como órgão da Juventude. Só em fevereiro de 1931 é que surgiria o “Avante!”.

Mas uma das maiores adversidades do PCP nos seus anos iniciais foi, sem dúvida, a denominada “Revolução Nacional”, no dia 28 de Maio de 1926, que pôs fim à Primeira República e começou a Ditadura Militar, que haveria de se prolongar, anos depois, no “Estado Novo”. Esse golpe militar comandado por Gomes da Costa, contribuiria para a interrupção dos trabalhos do II Congresso do PCP.

Os governos da Ditadura encerraram a Confederação Geral dos Trabalho (CGT) e o PCP teve de passar à clandestinidade. Seria o início de um percurso longo, com muitos obstáculos e solavancos até chegar ao “25 de Abril de 1974”. O novo Secretário-Geral foi José de Sousa.

Os anos seguintes foram muito conturbados para o PCP. Entretanto (1928), um novo político se afirmava no governo da Ditadura Militar, António de Oliveira Salazar, como Ministro das Finanças, a convite do Presidente da República, general Óscar Carmona. Os comunistas portugueses fazem-se representar em Moscovo, no IV Congresso da Internacional Sindical Vermelha (ISV). O novo Secretário-Geral do PCP é Augusto Machado.

No ano do crash da Bolsa em Wall Street (1929), Bento Gonçalves torna-se o Secretário-Geral do PCP. É nesse tempo que, por influência comunista, são criados diversos grupos contra a Ditadura, nomeadamente, a Organização Revolucionária da Armada (ORA), o Socorro Vermelho (SV), a Liga dos Amigos da URSS, a Liga Contra a Guerra e o Fascismo e se publica “O Proletário”, um quinzenário clandestino. No ano seguinte, Bento Gonçalves é deportado para os Açores, e, anos depois, enviado para o campo de concentração “O Tarrafal”, em Cabo Verde, onde viria a morrer no dia 11 de setembro de 1942. Ainda no ano de 1930, ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Álvaro Cunhal, que no ano seguinte entraria no partido através da Federação das Juventudes Comunistas (FJC). Viria a ser, como se sabe, entre 1961 e 1992, o carismático Secretário-Geral do PCP. Também no ano de 1931, surge a Organização Revolucionária do Exército (ORE), registam-se várias greves operárias e, em Espanha, funda-se a II República, o que representou uma importante ajuda para o reviralho português.

Ficha de recluso de Álvaro Cunhal_Peniche_in Vis

Ficha de Álvaro Cunhal como recluso de Peniche (in “Visão História”, n.º 63, fevereiro 2021, p. 25)

Em 1932, Álvaro Cunhal é dirigente da Associação Académica de Lisboa, ao mesmo tempo que Salazar se torna presidente do Conselho de Ministros, cargo que ocupará quase até à morte. Já em pleno “Estado Novo” (1935), Cunhal é eleito para o Secretariado da FJC. Em 1936, à semelhança do que aconteceu em Espanha e em França, o PCP lançou a “Frente Popular Portuguesa” de cujo Comité Central, Cunhal fez parte. Neste mesmo ano, Cunhal participa no VI Congresso da Internacional Juvenil Comunista, em Moscovo, quando começa a Guerra Civil Espanhola. Em solidariedade com o Governo da Frente Popular Espanhola, a ORA desencadeou a Revolta dos Marinheiros dos navios “Dão”, “Bartolomeu Dias” e “Afonso de Albuquerque”, que supostamente se deviam juntar às forças republicanas espanholas. Não conseguiram deixar o Tejo, os revoltados foram presos e enviados para o Tarrafal, em cabo Verde, outros (uma dezena) foram mortos durante os confrontos.

No dia 4 de julho de 1937, os anarcossindicalistas perpetraram, sem sucesso, um atentado à bomba contra Salazar, nas Avenidas Novas (Lisboa), mas a polícia política na tentativa de deslindar o caso, acusou injustamente os comunistas, prendendo e torturando alguns. Cunhal esteve preso no Aljube e foi torturado. São dele estas palavras (transcritas por José Pacheco Pereira, no vol. 3, de “Álvaro Cunhal / Uma biografia política”, páginas 28 e 29): «meteram-me no meio de uma roda de agentes espancaram-me a murro, pontapé, cavalo-marinho, (…) descalçaram-me os sapatos e meias e deram-me pancadas nas plantas dos pés».

As décadas seguintes (1940-1950) são vividas na mais completa clandestinidade, com os comunistas mais destacados a usarem identidades falsas para escaparem à vigilância da PIDE, mas sempre fazendo os seus Congressos, em locais e casas diferentes, e editando e distribuindo, mão a mão, o seu “Avante”. Ainda assim, muitos acabavam presos até à morte como aconteceu com o Secretário-Geral Bento Gonçalves. No dia 25 de março de 1949, Álvaro Cunhal volta a ser preso, desta vez juntamente com Militão Ribeiro (este haveria de morrer no Estabelecimento Prisional de Lisboa) e Sofia Ferreira. Cunhal ficaria preso em Lisboa, tendo sido transferido depois para Peniche, donde conseguiu evadir-se no dia 3 de janeiro de 1960. No ano seguinte é eleito Secretário-Geral do PCP, tornando-se o homem que mais tempo desempenhou o cargo até hoje (31 anos). Até ao “25 de Abril” viveu no exílio. Depois, foi uma destacada figura política do Portugal pós-Revolução dos Cravos, tendo feito parte integrante dos primeiros IV governos provisórios (1974 e 1975), como Ministro Sem Pasta, e sido eleito deputado à Assembleia da República, de 1975 a 1992.

Ficou bem conhecido dos portugueses, nos comícios, nas entrevistas e nos debates televisivos, pelo seu estilo direto e coerente com as convicções políticas de que não se desviava nunca. Depois dele, serviram o PCP como seus Secretários-Gerais, Carlos Carvalhas (de 1992 a 2004) e Jerónimo de Sousa (desde 2004).

publicado por viajandonotempo às 07:42

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