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Dezembro 30 2017

HÁ CEM ANOS DEZENAS DE MILHARES DE EXPEDICIONÁRIOS PORTUGUESES ESTAVAM LONGE DE CASA

 

Há cem anos os combatentes portugueses do CEP passaram o seu primeiro Natal muito longe das famílias, num ambiente hostil em todos os aspetos. Era tempo de Guerra, de frio, humidade e de carências de toda a ordem, tanto físicas como afetivas. Na África portuguesa (Angola e Moçambique), a guerra que envolvia também milhares de soldados portugueses (alguns deles já era o 4.º Natal que passavam longe das famílias) continuava.

  Um regimento de Infantaria Português em marcha pa

 Um Regimento de Infantaria marchando para a Frente de combate, há cem anos (in Ilustração Portuguesa, 31 de dezembro de 1917)

 

Em Portugal continental, apesar de não haver propriamente guerra a situação também não era boa. Sidónio Pais ocupara, recentemente, o poder por via revolucionária, instituíra a “República Nova” e a vida política e social estava agitada. As famílias sentiam-se incompletas para a celebração da “Festa da Família” – nome do “Dia de Natal” no calendário republicano – com tantos dos seus membros mobilizados para a Guerra e os preços de alguns produtos, nomeadamente do pão, do azeite e da batata, eram elevados para os rendimentos dos mais pobres (o ordenado médio diário era 60 réis, ou seja 60 centavos do escudo).

O jornal “República”, de 27 de dezembro de 1917, nas duas primeiras colunas da sua primeira página lembra os nossos expedicionários, sob o título: “Natal de Guerra”.

É daí que transcrevemos alguns excertos que se seguem.

«(…) Mas os que estão longe, os soldados, os que andam na guerra? Esses, sim. Esses são os mais desgraçados. (…).

São milhares nas terras ensanguentadas da França e na África longinqua. E é o primeiro Natal que os de França passam na guerra.

Lembremo-nos dêles, que todos temos lá parentes ou gente querida e que êste Natal deve ser bem triste para a sua alma nostálgica de portugueses. Para os chorar? Não. (…). Lembremo-nos dêles para os exaltar.

É certo que nêste dia há de haver por êsse país fóra muitas consoadas humedecidas de lágrimas, muita tristeza, muita dôr, muitas saudades dos ausentes e que nas trincheiras distantes milhares de homens, alguns a cair varados pelas balas, terão mais viva do que nunca a visão nostálgica das coisas suaves que êste Natal de guerra lhes fez abandonar e porventura perder para sempre. Mas é verdade tambem que uma missão heroica os chamou a longes terras e que o seu sacrifício é necessário á independência, á grandeza e ao futuro da Pátria.

Não os choremos. Lembremo-nos só dêles para os bemdizer e para os exaltar. Eles virão… E noutro Natal – no próximo talvez – sentar-se-hão ás nossas mezas e todas as lágrimas serão enxugadas e todas as tristezas passarão e o sol de Portugal parecer-nos-há mais vivo e mais lindo.

Quando êles voltarem… Sim. É assim que devemos falar dêles nesta hora saudosa. Há de ser lindo. (…) E no Tejo claro das conquistas, doirado pelo sol, as suas figuras de guerreiros hão de ter aos nossos olhos extáticos as proporções daqueles velhos nautas, destemidos e herois, os nossos maiores, que voltaram também num belo dia, nas náus antigas, depois das descobertas e com o convés ainda cheio das rosas da partida… (…).

E voltarão talvez para estarem cá no Natal do ano que vem. E será suavissimo êsse Natal. E mais uma vez o menino dôce de cabelos loiros fará um milagre: o milagre de no-los restituir.»

Esse “milagre”, como sabemos hoje, para grande número de soldados portugueses só ocorreu no ano de 1919, mas no Natal de 1918, felizmente, já a primeira Guerra Mundial havia terminado.

Sabemos que no primeiro Natal, em Guerra, no ano de 1914, tinha havido na “Frente de Combate” uma espécie de “Trégua de Natal”, na região da Bélgica e da França. (…) No dia 24 de Dezembro, porém, em certos pontos da frente ocidental, os alemães colocaram nos parapeitos das trincheiras árvores iluminadas e os Aliados juntaram-se a eles numa paz improvisada: foi a trégua de Natal da Primeira Grande Guerra (…).

Depois de promessas gritadas entre trincheiras, alguns soldados dedicaram cânticos de Natal aos adversários. Outros emergiram para dar apertos de mão e partilhar cigarros. Muitos concordaram a estender a paz até ao dia de Natal para se poderem encontrar de novo e enterrar os mortos. Cada lado ajudou o outro a cavar sepulturas e a realizar homenagens fúnebres. Os soldados partilharam comida e presentes, trocaram botões de uniformes como lembranças e defrontaram-se em partidas de futebol (…)».

Relativamente ao Natal de 1917, primeiro ano em que os nossos combatentes estavam em França, uma outra fonte que consultámos (www.4tons.com), refere o seguinte:

«O Natal de 1917 ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial. Na França, exércitos de milhões de soldados enfrentavam-se uns aos outros em desesperados ataques. Os alemães e os aliados viviam em frias e lamacentas trincheiras no solo, em linhas paralelas, com centenas de metros de arame farpado, e uma faixa de “terra de ninguém” entre eles. Cada lado golpeava o outro com milhões de quilos de bombas e gases venenosos. Dezenas de milhares eram feridos e mortos. Ao descerem as sombras da noite de Natal, os homens pensaram com saudade no Natal no seu lar. E essa saudade fê-los odiar ainda mais a horrível guerra que se travava. Ela parecia tão pecaminosa, comparada ao Natal. Repentinamente, às 10h e 30 minutos da noite, a artilharia alemã parou (…). Os soldados aliados interrogaram-se sobre o que estaria acontecendo. O que é que os alemães estariam a preparar? Estariam a preparar-se para usar gases venenosos de novo, ou esse intervalo seria antes do ataque maciço? Pouco tempo depois, os canhões dos aliados, na retaguarda, ficaram em silêncio também. Os soldados, nas trincheiras, aguardaram ansiosamente no meio da estranha calmaria que se abateu sobre a frente de batalha. Isso era tão estranho, após o grande barulho da artilharia, que os soldados falavam cochichando. Chegaram, então, as incríveis notícias: o alto comando alemão havia solicitado uma trégua para o Natal! Quando faltavam dez minutos para a meia-noite, os clarins soaram o toque de cessar-fogo. A trégua era oficial! De ambos os lados fogueiras iluminaram a noite escura. Os aliados viram então os soldados alemães saírem de suas trincheiras sem quaisquer armas. Pararam junto aos montões de barro e tiraram seus capacetes. Então alguém começou a cantar “Tudo é paz. Tudo amor.” Pasmados os soldados aliados saíram também de suas trincheiras e uniram as suas vozes no maravilhoso hino de Natal. Antes de terminarem, engenheiros de todos os lados abriram caminhos através do arame farpado. Momentos depois, os soldados que haviam sido inimigos passaram através dos buracos abertos no arame. De mãos estendidas, cumprimentaram-se como se se tratasse de amigos que há muito tempo se não viam. Intérpretes ajudavam-nos quando possível, mas as diferenças linguísticas não pareciam ter importância. Alegremente mostraram fotografias de familiares. Experimentaram os chapéus e capas uns dos outros, e riram da sua nova aparência. Então alguém sugeriu que deveriam trocar presentes também. E, assim, voltaram apressadamente às trincheiras a fim de ver o que encontrariam. Os aliados trouxeram latas de doces e de carne, e os alemães deram-lhes salsichas e outros alimentos. Os capelães dos dois lados improvisaram, até, um serviço religioso».

publicado por viajandonotempo às 16:07

Outubro 31 2017

CENTENÁRIO DA ÚLTIMA APARIÇÃO EM FÁTIMA

 

No dia 13 de outubro de 2017, comemorou-se o centenário da última aparição mariana no ano de 1917, em Fátima. Há cem anos terão assistido ao fenómeno miraculoso do sol mais de 50 mil pessoas. Crentes, curiosos e jornalistas convergiram nesse dia para a Cova da Iria.

 Fátima 13-10-1917.png

 A multidão que assistiu ao Milagre do Sol, na Cova da Iria, no dia 13 de outubro de 1917 (in “Ilustração Portuguesa”, de 29-10-1917)

Lúcia, a vidente que sobreviveu mais tempo, escreveu o seguinte nas suas “Memórias” relativamente a esta Aparição: «Saímos de casa bastante cedo, contando com as demoras do caminho. O povo era em massa. A chuva, torrencial. Minha Mãe, temendo que fosse aquele o último dia da minha vida, com o coração retalhado pela incerteza do que iria acontecer, quis acompanhar-me. Pelo caminho, as cenas do mês passado, mais numerosas e comovedoras. Nem a lamaceira dos caminhos impedia essa gente de se ajoelhar na atitude mais humilde e suplicante. Chegados à Cova de Iria, junto da carrasqueira, levada por um movimento interior, pedi ao povo que fechasse os guarda-chuvas para rezarmos o terço. Pouco depois, vimos o reflexo da luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira».

Foi então que se deu o fenómeno, pré-anunciado pelos pastorinhos para que o povo acreditasse no que diziam, que ficou conhecido como o “Milagre do Sol”. Uma multidão estimada em pelo menos 50 mil pessoas testemunhou, em direto esta ocorrência. Entre os circunstantes encontrava-se o jornalista de “O Século”, Avelino de Almeida que era não crente. Apesar de ser um ex-seminarista, há muito que tinha abandonado a fé e, entretanto, tinha responsabilidades editoriais naquele prestigiado jornal republicano e anti-clerical.

Na edição de “O Século” de 15 de outubro de 1917, o referido jornalista escreve a este respeito o seguinte: «E assiste-se então a um espectáculo único e inacreditável para quem não foi testemu­nha d'ele. [...] vê-se toda a imensa mul­tidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zénite. O astro lem­bra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-ia estar-se realizando um eclipse. [...] o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos brus­cos fora de todas as leis cósmicas - o sol “bailou”, segundo a típica expressão dos camponeses.»

Quinze dias depois, na revista “Ilustração Portuguesa” de 29 de outubro de 1917, Avelino Almeida interroga e responde: «(...) que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora prenunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-reidisco de prata fosca – em pleno zénite aparecer e começar dançando n'um bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestiu sucessivamente a superfí­cie solar... Milagre, como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi... O resto é com a Ciência e com a Igreja...». Por causa destes arti­gos, Avelino Almeida acabou por ser despedido de “O Século”, onde era redator-chefe.

O “milagre do sol” foi visto naquele dia na Cova da Iria e Nossa Senhora fê-lo para que todos acreditassem nos “pastorinhos”. Mas também foi observado por algumas pessoas fora de Fátima como aconteceu, por exemplo, com o poeta leiriense, Afonso Lopes Vieira. Este encontrava-se na sua casa, em São Pedro de Moel, distante cerca de 40 quilómetros de Fátima e dá o seguinte testemunho: «Nesse dia 13 de Outubro de 1917, eu, que não me lembrei da predição dos pastorinhos, fiquei encantado com o espectáculo deslumbrante do céu, para mim inteiramente inédito, a que assisti desta varanda».

O Milagre do Sol de acordo com vários testemunhos durou cerca de dez minutos. Os 3 pastorinhos relataram terem observado Jesus, Nossa Senhora da Conceição e São José abençoando a multidão no firmamento.

Uma das descrições mais citadas do que ocorreu em Fátima resulta do trabalho do padre italiano João De Marchi, que esteve em Fátima entre 1943 e 1950, com o propósito de recolher todos os elementos possíveis sobre o fenómeno daquelas Aparições Marianas. O seu estudo “Coração Imaculado” saiu em 1952, e aí o autor relata vários testemunhos sobre pessoas, crentes e não crentes, que estiveram na Cova da Iria. Os testemunhos variam de pessoa para pessoa, mas ninguém negou o “prodígio do Sol”.

O Padre João De Marchi afirma, nesta publicação, que «os grandes acontecimentos que se deram na Cova da Iria nos meses de Maio-Outubro de 1917 despertaram, especialmente nestes últimos anos, não só na terra portuguesa mas em todo o mundo católico, um interesse extraordinário. Multiplicaram-se assim, duma forma que quase diremos prodigiosa, as publicações sobre as Aparições da Virgem Santíssima e sobre os vultos enternecedores dos pastorinhos de Fátima. Propondo-nos, também nós, por nossa vez, reconstruir também a história das Aparições de Fátima, determinamos fazê-lo na moldura daquele ambiente agreste que a Virgem se dignou escolher como cenário para a manifestação dos seus desígnios de misericórdia – para com Portugal e para com a Terra inteira. Residindo em Fátima, tivemos excelente oportunidade de conhecer o ambiente, os costumes e as características deste tão simpático povo, no meio do qual a Virgem colheu os instrumentos da sua Mensagem celeste. Para que esta reconstrução fosse o mais possível viva e real, procuramos reproduzir literalmente as palavras de cada uma das personagens».

publicado por viajandonotempo às 14:29

Setembro 29 2017

ALEXANDRE HERCULANO MORREU HÁ 140 ANOS

Alexandre Herculano.png

Alexandre Herculano é um dos maiores historiadores portugueses, havendo mesmo quem o considere o fundador da historiografia portuguesa. Mas foi também um consagrado escritor, cujos poemas e romances o tornaram uma destacada personalidade do romantismo português. Escreveu em diversas revistas e periódicos portugueses, de carácter cultural ou informativo, alguns dos quais foram mesmo fundados por si.

Nasceu em Lisboa a 28 de março de 1810 e morreu no dia 13 de setembro de 1877, na Quinta de Vale de Lobos, Azoia de Baixo, Santarém.

Herculano nasce no ano da 3.ª invasão francesa e, durante o seu crescimento, vive numa atmosfera de grande intensidade política de algum ódio para com os franceses, primeiro, e, depois, contra os ingleses. Tem 10 anos quando se dá a Revolução Liberal Portuguesa, 12 quando o Brasil se torna independente e é aprovada a Constituição Portuguesa, mas já é adulto quando ocorre a Guerra Civil (1832-1834), na qual participa, como um dos “Bravos do Mindelo” ao lado de D. Pedro e, entre muitos outros, de Almeida Garrett.

Em termos políticos, Alexandre Herculano sempre se revelou um liberal convicto. Ter-se-á iniciado na maçonaria, muito provavelmente quando esteve exilado em Inglaterra, no período das perseguições miguelistas, mas acabaria por abandoná-la, pouco depois.

D. Pedro, no período do Cerco do Porto, nomeou-o seu Bibliotecário na cidade e nesse período terá iniciado a direção e colaboração regular na revista de Lisboa, “O Panorama”.

Como historiador, uma das obras mais notáveis, foi a “História de Portugal”, cujo primeiro volume saiu em 1846. Este seu trabalho terá sido o primeiro passo de uma verdadeira história, alicerçada numa metodologia científica, que se baseia em documentos fidedignos. Mesmo assim levantou alguma polémica, pela originalidade da sua produção e sobretudo por algumas afirmações feitas com coragem e com a determinação que a base documental permitia. Os maiores críticos surgiram no meio eclesiástico, sobretudo porque Alexandre Herculano pôs em causa o célebre “Milagre de Ourique”, segundo o qual Cristo teria aparecido a D. Afonso Henriques anunciando previamente a sua vitória. Sabemos hoje que até a data e o local são postos em causa, quanto mais a intermediação divina. Em resultado do prestígio científico granjeado por Herculano com a sua História de Portugal, a Academia das Ciências de Lisboa nomeou-o seu sócio efetivo e a entregou-lhe o enorme e muito importante projeto que foi o “Portugaliae Monumenta Historica”, que consistiu na recolha de documentos valiosíssimos que se encontravam nos arquivos de conventos e mosteiros de todo o país, e que constituiu um projeto monumental que levou a cabo nos anos 1853 e 1854, iniciando a sua publicação em 1856. Como os mosteiros e conventos foram extintos e os seus bens leiloados em hasta pública, este trabalho de Herculano ainda ganha maior importância e pertinência, pois sem ele, milhares de documentos que são hoje fonte historiográfica importante, ter-se-iam perdido para sempre.

Em termos políticos, Herculano foi sempre adepto da Carta Constitucional, e por isso, em 1836, recusou a sua adesão ao Setembrismo. Foi deputado às Cortes, mas recusou fazer parte do primeiro Governo da Regeneração, em meados do século (1851). Em termos autárquicos, como hoje diríamos, foi Presidente da Câmara de Belém (nos subúrbios de Lisboa, anos de 1854 e 1855), cargo que abandona rapidamente. Morreu aos 67 anos, de pneumonia e está sepultado no Mosteiro dos Jerónimos.

publicado por viajandonotempo às 08:07

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