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Novembro 29 2016

Os primeiros soldados desembarcaram

em Lisboa a 23 de novembro de 1918

 

combatentes portugueses na 1GM.png

 

 

Há 98 anos, na manhã do dia 23 de novembro de 1918, chegavam a Lisboa, os primeiros combatentes portugueses, após a assinatura do Armistício, ocorrido 12 dias antes. Eram 485 militares do CEP, que bem poderiam ser titulados de “heróis” e de “vitoriosos”. Mas, apesar de ser Sábado, para além de alguns familiares e das entidades representativas do Estado e das Forças Militares, não havia mais ninguém para receber festivamente aqueles que tanto tinham sofrido na frente de combate, ao serviço da Pátria. A bordo vinha também, aquele que poucos anos depois se haveria de cobrir de glória, o então capitão tenente piloto aviador da Armada, Artur de Sacadura Freire Cabral que em 1922 fez, com Gago Coutinho, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

A imprensa cumpriu bem a sua missão. O jornal “A Capital”, por exemplo, carregou nos diversos títulos da notícia: como antetítulo escolheu “Ditosa Patria que taes filhos tem”, como título propriamente dito, “O Regresso dos Heroes” e subtítulo “Voltaram hoje da França amada, soldados portuguezes”. Elogia os heróis que regressam da Guerra que venceram e critica o povo de Lisboa que não os recebe condignamente.

«O coração ainda nos estremece do commoção. Fômos assistir, ha pou­cas horas ainda, ao desembarque dos nossos soldados, que da terra sagra­da da França, cobertos de gloria, cheios de honra, regressam alegres, depois da Victoria.

A muitos d’elles foi um acendrado patriotismo que para lá os arrastou, a crepitar no altar a chamma ardente dos grandes ideaes; outros partiram porque o dever lhes apontou esse caminho, á primeira vista eriçado de escolhos, repleto de perigos, no ter­mo, afinal, tapetado de honras e de heroismos.

Muitos por lá ficaram a dar á terra de França, que a botifarra prussiana calcou sacrilegamente, o vigor indomável do seu sangue em que estuam enthusiasmos incendidos, em que ardem, em palpitações de chamma, as virtudes guerreiras que fizeram da Raça o prototipo da Valentia, da Lealdade, da Honra.

Regressaram os heroes, simplesmente, sem alarido, quasi sem enthusiasmo. A população do Lisboa, que outr’ora vibrava em enthusiasmo nos grandes dias, não os foi receber festivamente – como devia, como era dever imperioso de todos nós, cujo futuro, com o seu sangue e o seu braço, elles garantiram solidamente. Dir-se-hia, na quasi indifferença que observámos, ter-se quebrado na alma do lisboeta aquella corda tão sensivel, tantas vezes clangorando sons magestosos de epopeia, nas occasiões solemnes em que o delirio dos grandes momentos o tomava to­do.

Aparte pessoas das famílias dos soldados, viam-se apenas alguns curiosos o duas ou tres pessoas que o dever do officio para lá obrigou a ir – áquella maçada, como ouvimos, in­dignados, a uma d'ellas.

No emtanto, os nossos heroicos sol­dados, indifferentes á frieza da recepção vinham alegres, prazenteiros (…).

Dos regressados 15 são officiaes, 19 sargentos e 451 cabos e soldados. D’estes 1 é mutilado, 52 tuberculo­sos, 5 doidos, 201 doentes de molestias geraes, 167 licenceados pela junta, 6 licenceados de campanha e 38 condemnados, alguns em penas graves».

Razão tinha o Padre José Ferreira de Lacerda, Alferes capelão-militar da 3.ª Brigada de Infantaria e Diretor de O Mensageiro, de Leiria, que aí fez publicar alguns artigos escritos na Guerra, com o título geral «Em Campanha». No artigo saído a 1 de agosto de 1917, e escrito a 20 de julho de 1917 afirma: «Conheço o nosso soldado, actualmente, desde a caserna até às trincheiras, desde o sobrado da casa que nos serve de capela e onde centenas e centenas deles, todos os dias, vão orar, buscar alentos, revigorar a fé, até ao momento em que os vejo saltar a trincheira, altas horas da noite, para seguirem ou voltarem de alguma patrulha ou raid. Sempre risonhos, sempre valorosos. Não há soldados como os nossos. (…) O povo é inconsciente, é a eterna criança. Às horas que eles aí dançam e cantam, estão os irmãos e os filhos a cair varados por balas, estilhaços de morteiros e gazes. Não calcula o que sinto, o sofrimento do nosso soldado. E são tão bons, tão dóceis! Que impressão ao verem a morte sempre diante deles! (…)».

publicado por viajandonotempo às 10:54

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