VIAJANDO NO TEMPO...e no espaço!

Setembro 30 2021

As dificuldades económicas

thumbnail_Edital-pneumonica Governador Civil de Le

Edital do Governador Civil do distrito de Leiria de 3 de outubro de 1918 proibindo grandes feiras e romarias para impedir ajuntamentos

Com a participação na Primeira Grande Guerra (1914 a 1918), em África (Angola e Moçambique, desde 1914) e na Flandres francesa (desde 1917), Portugal viu agravarem-se os seus problemas económicos que, por tradição vinham dos séculos anteriores. A Guerra representou um grande custo financeiro (com consequente endividamento externo) e ocupou parte significativa da mão-de-obra masculina jovem. Por isso, as dificuldades foram maiores.

No domínio agrícola, Portugal adiou a “reforma agrária” e continuou carente de trigo para fazer o pão, recorrendo a importações que ajudava a pagar para manter o preço do pão o mais baixo possível, tentando evitar, assim, a fome generalizada das classes urbanas pobres. Portugal continuava a ser um país rural, cuja população vivia, sobretudo, da exploração de vinho, cortiça, frutas e da pastorícia. A instabilidade política da Primeira República (45 governos) também não ajudou à tomada de decisões estruturais capazes de fazer renascer a economia, em bases sólidas.

Após o Armistício, o défice orçamental, a dívida pública e a desvalorização da moeda foram motivo de diversas crises governamentais e de instabilidade política. A depreciação do escudo provocou a fuga de capitais e o aumento dos preços. As reservas de ouro desceram e o país foi obrigado a uma política de austeridade orçamental. O país atravessou grandes dificuldades que estão, de resto, na base da queda do regime republicano, em 1926.

No que respeita ao abastecimento, à entrada e saída de géneros em cada concelho, à garantia da ordem e segurança públicas, essas funções eram da competência do administrador do concelho (o representante do governo em cada município), que nem sempre as conseguiu exercer de forma a evitar situações de graves carências em matéria de subsistências e consequente agitação social.

É preciso lembrar que neste período de que estamos a falar (após 1918 e até 1921) as taxas de mortalidade da população portuguesa eram muito elevadas. E, especialmente, em 1918, as Taxas de Mortalidade atingiram valores superiores a 40 óbitos por cada mil habitantes, e a taxa de mortalidade infantil chegou aos 46,5 por mil. Foram, de facto, das mais elevadas taxas de mortalidade que Portugal conheceu. Só a pneumónica ou “gripe espanhola” fez mais de 60 mil vítimas, a que se juntaram mais umas dezenas de milhares provocadas por outras doenças graves e pela grande degradação que as condições de saúde então conheciam.

Tudo isto é também resultado das más condições em que vivia a maioria da população portuguesa, com uma alimentação pobre, porque o pão era cada vez mais caro e produtos alimentares como o peixe, a carne ou a manteiga, eram comercializados por preços elevadíssimos devido aos impostos, operações cambiais e taxas alfandegárias. Muitas vezes a qualidade dos produtos também era adulterada, com repercussões evidentes a nível da saúde. Para se ficar com uma ideia dos valores, podemos dizer que, por exemplo, um litro de leite correspondia a cerca de 18% do salário médio de um operário e, uma dúzia de ovos chegava a equivaler a 60% do mesmo ordenado. Em 1917, um operário ganhava por dia cerca de 60 réis e, em 1924, 8 escudos e meio.

Efetivamente, nos anos 1920, o custo de vida subiu vertiginosamente em Portugal (e nos outros países que mais diretamente estiveram envolvidos na Guerra) e não foram acompanhados, ao mesmo nível pelo poder de compra. Comparando com o ano de 1914 (índice 100), um estudo sobre as condições de vida do operariado bracarense, mostra para o ano 1921, um aumento dos salários dos trabalhadores para os 750; enquanto o custo de vida aumentou, no mesmo ano, para 816,70; houve, portanto, uma evidente perda do poder de compra, que se vinha já agravando desde 1918.

Mas para que o leitor fique com uma ideia mais exata do que então se passava em Portugal, nada como, a terminar, transcrever um texto que, sobre este assunto, saiu no diário “A Capital” aos 17 de setembro de 1921.

Sob os títulos “Carestia da vida” / Preços intoleraveis – Abuso de confiança – Um bom exemplo a seguir”, escrevia-se na primeira página de “A Capital”, desse dia, o seguinte:

«O vocabulario portuguez não comporta palavras suficientes para expressar a indignação que vai no animo do povo, perante a carestia exorbitante e injustificada dos géneros de primeira classe.

A baixa no preço da libra-cheque serve aos especuladores de retalho para pretexto justificativo do imenso crime que se está cometendo a coberto da palavra – carestia.

Não se trata do bacalhau, que, embora carissimo, vem do estrangeiro e pode bem defender-se com o cambio, comquanto nem sempre justificadamente.

Outros artigos, porém, genuinamente nacionais, como carnes, banha, chouriço, manteiga, queijos, batata, cebolas e tantos outros que nada teem que vêr com França, Inglaterra, Belgica ou America, oscilam de dia para dia com o agio da libra, como se dela estivessem dependentes.

O vocabulo – ganhuça ou ganancia – não traduz por modo algum este proceder inadmissivel da parte dos comerciantes, com a cumplicidade tolerante das autoridades.

Que os monstruosos escandalos das negociatas inconfessaveis acobertadas por nomes até aqui idolatrados como se fossem fetiches ou manipansos, não tenham o poder de deixar impunes esses outros não menos criminosos, que a sombra de uma licença na Camara Municipal, e uma habilitação e registo no Tribunal do Comercio, se arrojam o direito de agravar a crise alimenticia, com uma carestia injustificada e ás vezes com o envenenamento por generos em adeantado estado de deterioração, quando não falsificados com drogas intoxicantes, é cousa verdadeiramente indispensavel.

Não! “A Capital” não pode continuar a assistir á impunidade dos que não teem o menor escrupulo em lançar a nação na mais pavorosa anarquia, mercê da fome e da miséria que cumpre evitar a todo o transe.

Aproxima-se a estação invernosa. Familias inteiras, sem lar e sem tecto terão de desaparecer dos desvãos das escadas, dos bancos das Praças Publicas e das furnas de Monsanto onde todo o verão fingem que se abrigam.

Durante a estação temperada ainda as familias envergonhadas iludem a fome com pedaços de pão seco colhido das dissimuladas esmolas. No inverno, porém, nem podem dispensar o soalho onde durmam, nem o chá ou o café que os conchegue, nem o lume e a luz que os agasalhe.

O que esperam as autoridades ás quais incumbe, como delegados do Estado, manter o equilíbrio indispensavel entre as populações e os subsistencias?

Pois assistem indiferentes a estes preços insuportaveis das batatas e da manteiga? Continuam a deixar impunes as leitarias e os leiteiros que por todos os processos delapidam os consumidores, vendendo-lhes, com o nome de leite uma agua de lavagens, privada de todas as gorduras de que fabricam manteiga e queijos para tornar a vender aos que já lhas pagaram a titulo de leite?

Consentem acaso que se repitam e multipliquem os casos fulminantes de envenenamento por gorduras intoxicantes, vendidas por azeite, como há dois dias aqui noticiámos?».

publicado por viajandonotempo às 06:37

Setembro 2021
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29


ÍNDICE DESTE BLOG:
arquivos

Novembro 2021

Outubro 2021

Setembro 2021

Julho 2021

Junho 2021

Maio 2021

Abril 2021

Março 2021

Fevereiro 2021

Janeiro 2021

Dezembro 2020

Novembro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Tags

todas as tags

pesquisar
 
mais sobre mim
contador
blogs SAPO