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Maio 31 2022

HÁ CEM ANOS FOI DECLARADO O ESTADO DE SÍTIO NESTE TERRITÓRIO

Macau, importante entreposto comercial do Extremo Oriente, foi administrado por Portugal ao longo de 4 séculos e meio, isto é, entre meados do século XVI – quando os chineses permitiram que os portugueses aí se fixassem para intermediarem o comércio entre a Europa, a China e o Japão – e o fim do século XX (dezembro de 1999) quando Macau, no delta do Rio de Pérolas, foi integrado na República Popular da China como sua zona administrativa especial. Hoje recordamos uma situação de alguma conflitualidade entre as autoridades portuguesas e a população chinesa macaense que ocorreu há cem anos.

1 Os tumlutos de Macau_ilustração Portugueza 860

Os tumultos de Macau (reportagem da Ilustração Portugueza, edição de 12 de agosto de 1922)

 

No dia 29 maio de 1922 foi declarado o estado de sítio em Macau pelas autoridades portuguesas, na sequência de mais uma ocorrência de confrontos entre as forças policiais e membros da comunidade chinesa de que resultaram mais de três dezenas de mortos.

A imprensa de Lisboa, embora com poucos pormenores ainda, dava a notícia no dia seguinte.

O “Diário de Lisboa” na sua última página, da edição de 30 de maio de 1922, traz a seguinte nota: «A gréve de Macau / Um telegrama do governador.

No ministério das Colonias recebeu-se hoje o seguinte telegrama do governador de Macau, sr. Correia da Silva:

“Achando-me ontem em Hong-Kong, por motivo de uma avaria no vapor d’Angola, onde regressava á metropole, e tendo conhecimento de se ter declarado a greve em Macau, regressei temporariamente á colonia; remeto telegrama em que o encarregado do governo relatará quaisquer acontecimentos.»

Este telegrama ainda não foi recebido no referido ministerio.”

“A Capital”, também de 30 de maio de 1922, dá a mesma notícia, mas, na página 1, refere a este propósito mais o seguinte: «Um telegrama de Hong-Kong em data de hontem, comunica que o movimento grevista de Macau tomou um caracter anti-estrangeiro.

Um bando de grevistas atacou uma pequena força portugueza, desarmando o oficial. As forças portuguezas tomaram depois a ofensiva matando muitos chineses».

Nesse mesmo dia 30 de maio, o Comandante Militar da Cidade, coronel Joaquim Augusto dos Santos, convocou «todos os cidadãos portugueses válidos a apresentar-se imediatamente no quartel do corpo de Voluntários (em Santa Clara), a fim de serem mobilizados para serviço do Governo».

O “Diario de Lisboa” de 1 de junho informava que a situação em Macau se estava a normalizar «de Macau informam que a situação se está normalizando, tendo já aberto as suas portas todo o comercio, que entram na cidade os géneros necessarios para o seu abastecimento e que os operarios chineses se abstiveram de continuar a fazer disturbios».

Cruzando várias fontes, o que parece ter acontecido, foi que um soldado moçambicano, a prestar serviço militar em Macau, terá assediado uma mulher chinesa, o que levou a uma vaga de protestos públicos, sobretudo da população chinesa residente em Macau, levando as autoridades à detenção de um indivíduo chinês. Uma grande multidão juntou-se frente ao Posto Policial da Caldeira pedindo a libertação do detido, o que foi recusado. Neste contexto os polícias foram obrigados a abrir fogo contra os manifestantes, tendo resultado vários mortos. Daí a declaração de “estado de sítio” no território. Registaram-se também várias greves e alguns problemas com as autoridades chinesas de Cantão, serenando mais tarde com o castigo dos militares envolvidos e o contingente das forças africanas teve de sair de Macau.

No final desse ano de 1922 (13 de dezembro) ainda estava bem viva alguma xenofobia entre a população chinesa e a população portuguesa no território, tendo aquela lançado uma bomba, nos jardins do Palácio do Governo. Foi mais uma numa série de vários atentados bombistas que os terroristas chineses xenófobos vinham executando, em Macau, tendo afetado o cinema Vitória, o Grémio Militar e alguns estabelecimentos comerciais.
Fiquemos agora com a narrativa dos acontecimentos conforme foram divulgados, quase três meses depois, pela “Ilustração Portuguesa”, n.º 860, de 12 de agosto de 1922:

«Os tumultos de Macau

Felizmente não teve maiores consequencias o incidente que se deu em Macau entre as tropas da nossa guarnição e a populaça chineza que enxameia na cidade. As primeiras noticias telegraficas, na sua concisão, deixavam antever acontecimentos graves. Originou esse incidente uma das praças, indigenas de Moçambique, ali em serviço ter na sua passagem, tropessado, sem querer, n'uma creança chineza que ia pela mão da mãe, levantando esta um berreiro injustificado.

Os chinezes, tomando o partido da mulher, amotinaram-se e lançaram-se ao soldado, defendendo-se este valentemente e levando um d'eles preso para a esquadra; mas, ao retirar-se d'ali, a canalha saltou em cima d'ele, deixando-o em estado tão lastimôso que teve de recolher á enfermaria do hospital. No dia seguinte declarou-se a greve geral e uma multidão enorme acumulou-se sussurrante e agitada na Avenida Marginal, havendo cabecilhas que a incitavam contra os portuguezes. Os ·manifestantes rodearam depois a esquadra, ocupando completamente as ruas proximas, formando barricadas e não deixando passou ninguem.

A força militar encontrava-se isolada e a gentalha ameaçava ruir sobre ela. O tenente sr. Rogerio Ferreira resolveu sair d'aquela situação. Um dos amotinados lançou-se-lhe ao pescoço para o estrangular.

O oficial puxou da espada, e com ela inda feriu alguns, mas, por fim, arrancaram lh'a das mãos. Não havia paciencia que resistisse por mais tempo. Da multidão partiram varios tiros de revolver e um soldado baqueou. Então a tropa deu uma descarga contra os manifestantes. Um bom numero d'eles caíu varado de balas, ao passo que os restantes, que subiam a mais de 4.000, se puzeram em fuga, deixando na sangueira, que cobria o solo, sapatos, leques, lanternas, varapaus e bandeiras.

Se não tomam essa resolução, eram todos varridos por uma metralhadora que pouco depois chegava ao local.

A deserção foi tão completa que nem se importaram com os mortos. Recolheram-nos os nossos soldados, envolvendo-os em esteiras e removendo-os em camions para o cemiterio. Vinte e tantos dos fugitivos haviam-se refugiado n'uma casa em ruinas. Foram lá descobertos empilhados uns sobre os outros. Quando se sentiram descobertos saíram e puzeram-se de joelhos; deante das nossas tropas pedindo misericordia. No esconderijo ficara só um estendido, porque esse estava morto. O governo chinez não julgou do seu direito o intervir.»

O “Diário de Lisboa” de 1 de junho informava que a situação em Macau se estava a normalizar «De Macau informam que a situação se está normalizando, tendo já aberto as suas portas a todo o comercio, que entram na cidade os géneros necessarios para o seu abastecimento e que os operarios chineses se abstiveram de continuar a fazer disturbios».

De acordo com as negociações entre Portugal e a China, Macau irá manter até 2049 o mesmo sistema político, económico, social e cultural que tinha durante a administração portuguesa, já no tempo da democracia. Quer isto dizer, que em Macau são assegurados todos os direitos e liberdades pessoais, a liberdade de expressão, de imprensa, de reunião, de associação, de deslocação, de greve, de religião e de crença. Macau conhece um grande crescimento económico resultante do jogo, do turismo e das exportações (sobretudo de têxteis e de brinquedos) e representa, tal como Hong Kong, uma importante mais-valia para a China, na sua política de abertura à economia de mercado e ao Ocidente.

 

 

 

publicado por viajandonotempo às 19:07

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