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Fevereiro 28 2019

Há cem anos, na segunda quinzena do mês de janeiro e na primeira do mês de fevereiro, prosseguiam os combates entre os republicanos fiéis ao governo e os monárquicos refugiados na capital do Norte. A restauração da Monarquia foi feita por Henrique Paiva Couceiro na cidade do Porto, no dia 19 de janeiro de 1919, com repercussões em Monsanto (Lisboa) quatro dias depois, o país ficou praticamente no estado de guerra civil, com os monárquicos na capital do norte a tentarem resistir à pressão das forças republicanas. Aguentaram 25 dias, até 13 de fevereiro de 1919.

A restauração da Monarquia no Porto

Diário da Junta Governativa do Reino.png

O governo monárquico imprimiu o “Diário da Junta Governativa do Reino”

A primeira página de “A Capital”, do dia 30 de janeiro de 1919, é inteiramente dedicada ao Movimento Monárquico. Num dos primeiros subtítulos desse diário republicano da noite, procuram sossegar-se os republicanos, quanto à unidade que há entre os membros do governo nesta matéria: «Podemos affirmar que o governo já deliberou pôr em execução certas medidas que satisfazem por completo as reclamações da opinião republicana. Os presos monarchicos serão impossibilitados, por uma rigorosa incommunicabilidade, de praticarem quaisquer manejos contra a Republica». Já a “Ilustração Portuguesa” de 10 de fevereiro de 1919 dá conta do apoio popular ao governo presidido pelo mesmo José Relvas que, quase nove anos antes, havia proclamado a República, na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. A este propósito aí se escreve o seguinte: «Domingo, 2 de fevereiro, o povo republicano de Lisboa, desprezando o rigor da invernia, levou a cabo com um entusiasmo indescritivel uma das mais calorosas e vibrantes manifestações que teem sido feitas em honra e apoio do governo. Milhares de pessoas congregaram-se na Rotunda e desceram a Avenida empunhando bandeiras nacionaes e erguendo vivas á Patria e á Republica, a caminho do Terreiro do Paço, onde, a pé firme, sob as cordas de chuva, o regimen e os seus homens mais prestigiosos foram delirantemente aclamados».

Episódios belicistas da “Monarquia do Norte”

A imprensa afeta aos republicanos de há cem anos dá conta dos movimentos contra o governo monárquico de Paiva Couceiro, no Porto, por parte das forças militares fiéis ao governo republicano, desde 27 de janeiro de 1919 presidido pelo homem que proclamou a República no dia 5 de Outubro de 1910, José Relvas. Assim, de Lisboa, na noite de 5 para 6 de fevereiro parte o navio Pedro Nunes, armado com duas peças à proa de 12 cm e à popa quatro peças, sendo duas de 47 mm e duas de 76 mm. No barco afecto à causa republicana é recebida a mensagem enviada pelo posto telegráfico de Monsanto que saúda as forças republicanas de terra e de mar e termina com um “viva” à República.

Os monárquicos iam ficando cada vez mais confinados à cidade do Porto. Um pouco por todo o país, hostes republicanas encaminhavam-se para a capital do Norte. Em Aveiro, no dia 5 de fevereiro, foram aprisionadas tropas monárquicas por militares republicanos. Um “raid” de hidroaviões lançou 4 bombas sobre o caminho-de-ferro em Espinho, cortando a ligação férrea com o Porto. Outros hidroaviões lançaram propaganda política republicana sobre a cidade do Porto. Ainda no mesmo dia, em Coimbra, foram presas várias pessoas ligadas ao ideal monárquico e outras fugiram da cidade, controlada pelos republicanos. Ainda no dia 5 de fevereiro, de Castelo Branco, partem várias forças de infantaria, cavalaria e artilharia com destino ao Porto para combaterem as tropas ao serviço de Paiva Couceiro. Há também notícias de mobilização de civis. E são organizados donativos que têm em vista a compra de agasalhos e de tabaco para os soldados que combatem pela República. Já na imprensa do dia 7 de fevereiro se refere que 60 alunos do Colégio Militar se ofereceram para combater contra os monárquicos; se noticia que ao fim da tarde desse dia, de Santa Apolónia, seguirá mais um comboio especial, com destino ao Entroncamento, carregado com cerca de 200 militares sob o comando de um capitão.

O fim da Guerra Civil, entre monárquicos e republicanos

Depois de 25 dias de Monarquia na capital do Norte, os republicanos conseguiram triunfar e ter de volta, em todo o país, o regime republicano. O Quartel-General Monárquico de Paiva Couceiro estabelecera-se no Hotel Universal do Porto.

O país viveu este episódio, com repercussões em várias outras cidades do país, incluindo Lisboa, com muita perplexão e surpresa. Em Lisboa os monárquicos foram rapidamente derrotados, mas a norte de Aveiro a situação de autêntica Guerra Civil foi mais durável. Muitas vilas e cidades do norte, e algumas do centro, aderiram prontamente à Monarquia. Na província do Minho e em grande parte da Beira, muitas se manifestaram a favor da Monarquia, como aconteceu em Viana do Castelo, onde a adesão popular foi um facto. A província de Trás-os-Montes mostrou-se bastante dividida, com as maiores cidades, Vila Real e Chaves, a permanecerem convictamente republicanas.

Os monárquicos, uma vez proclamada a restauração do seu regime, apressaram-se a criar o respectivo jornal oficial, o “Diário da Junta Governativa do Reino de Portugal” onde ia sendo divulgada toda a produção legislativa da Monarquia, que substituía a da República e voltava à mesma realidade de há dez anos atrás. Mudaram os feriados, aboliram a moeda que voltou aos réis, extinguiram o Registo Civil, restabeleceram as relações com a Igreja (que voltou a ser a religião oficial do Reino de Portugal), voltaram à bandeira azul e branca, proclamaram a Carta Constitucional de 1826 e o hino da Carta passou a ser o Hino Nacional. Para a defesa do novo regime, na capital do Norte foram criadas brigadas civis para lutarem pela causa, perseguirem e prenderem os republicanos. Também o governo republicano armou o povo, convocando para o Campo Pequeno uma grande manifestação de apoio à República que acabou com a mobilização de civis para os combates que se anteviam com as hostes monárquicas. Formar-se-iam ainda Batalhões Académicos em Lisboa e em Coimbra de apoio e defesa à República. Exército, Marinha e alguns aviadores portugueses, como Sacadura Cabral e Santos Moreira, deram o seu apoio à República que acabaria por vencer.

Para trás ficaram 25 dias de Monarquia, circunscrita ao Norte, e graves convulsões político-militares que provocariam cerca de 150 mortos e várias centenas de feridos e de prisioneiros.

publicado por viajandonotempo às 08:34

Janeiro 30 2019

Há cem anos o país estava praticamente em guerra civil

cAMPO PEQUENO.png

Na praça de touros do Campo Pequeno. - Cidadãos já inscritos alinhados por pelotões, recebendo as primeiras instruções militares. (inIlustração Portuguesa, 676, 3 de fevereiro de 1919)

 

Após a restauração da Monarquia por Paiva Couceiro na cidade do Porto, no dia 19 de janeiro de 1919, com repercussões em Monsanto (Lisboa) quatro dias depois, o país ficou praticamente no estado de guerra civil, com os monárquicos na capital do norte a tentarem resistir à pressão das forças republicanas. Aguentaram 25 dias, até 13 de fevereiro de 1919.

Os monárquicos em Monsanto seriam vencidos muito mais cedo. No dia 23 de janeiro, Aires de Ornelas comanda tropas fiéis à Monarquia, que tomam posições na Serra de Monsanto, por influência do movimento do Porto. O governo republicano nomeia Vieira da Rocha para organizar o ataque aos monárquicos que se encontram em Monsanto. Muita população civil acompanha os militares republicanos e, segundo a imprensa do tempo, esta participação popular terá contribuído significativamente para o triunfo das forças governativas, no final da tarde de dia 24 de janeiro.

Ainda no dia 23 de janeiro, enquanto se combatia em Monsanto, tropas republicanas ocupavam vários quartéis em Bragança. Também na cidade de Viseu, nesse mesmo dia, os monárquicos eram derrotados.

No dia 24 de janeiro de 1919, em sentido contrário, registaram-se várias adesões à causa monárquica, com a proclamação do velho regime em Vila Real e em Estarreja.

No dia 26 de janeiro de 1919, um Domingo, o governo republicano nomeia o general Alberto da Costa Ilharco comandante das tropas republicanas, numa conjuntura de praticamente guerra civil entre forças republicanas e as hostes monárquicas a Norte.

Nos últimos dias de Janeiro em várias terras do Norte do país houve confrontos militares entre republicanos e monárquicos. O que é isto senão uma guerra civil? Apesar do esforço de politização dos republicanos, no sentido de “converter” o povo às causas da República, havia ainda muitas pessoas que preferiam a monarquia. É preciso também contar com o peso da religião católica (a maioria do povo português manteve a sua fé arreigada e o fenómeno de Fátima consolidou-a) e com os dissabores que a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial trouxe ao país real.

Nos finais de Janeiro (dia 28), sai de Lisboa uma divisão naval com a missão de operar contra a “Monarquia do Norte”. Nos dias seguintes, prosseguem os combates entre as forças republicanas e monárquicas, dando-se, no dia 29 de janeiro, o recontro de Angeja (uma das freguesias do concelho de Albergaria-a-Velha), e no dia 30 de janeiro, os monárquicos tentam mas não conseguem ocupar Aveiro, que se torna assim uma das fronteiras de um Portugal dividido entre a Monarquia, mais a Norte, e a República, mais ao Centro e a Sul.

No último dia de janeiro de 1919, há cem anos, as forças republicanas avançam no terreno e ultrapassam Angeja e Albergaria-a-Velha. Já no mês seguinte, a 1 de fevereiro de 1919, prosseguem os combates entre republicanos e monárquicos. Bem a Norte, a cidade de Chaves mostrava ser um bastião republicano, tendo resistido aos monárquicos com a determinação do Tenente-coronel Ribeiro de Carvalho. Daqui sairiam forças militares, que haveriam de deter o avanço da ofensiva monárquica.

 

publicado por viajandonotempo às 22:51

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